A primeira pessoa

Eu, eu, eu, eu, eu

Eu, eu, eu, eu, eu

A primeira pessoa é polêmica. Portanto, para atrair a sua atenção, leitor, é com ela mesma que eu vou debater um tema que ronda a minha cabeça por meses: o uso dessa louca desvairada e divina maravilhosa que é a primeira pessoa.

Demorei anos para criar um blog porque temia que virasse uma egotrip maluca, textos em primeira pessoa que pareceriam extraídos do “meu querido diário”. No final das contas, relaxei (e, diria, estou gozando) e aqui estamos numa coisa que é exatamente — ou quase — o que eu temia. A começar pelo título, um trocadalho do carilho com o meu nome. Sim, acabou virando uma egotrip-maluca-em-primeira-pessoa, mas que é divertida — certamente para mim, e espero que para quem lê também.

A primeira pessoa foi proibida para mim por muito tempo. Posso dizer que na minha primeira década como “jornalista profissional”, se a usei cinco vezes foi muito. Aprendi, principalmente em 2003 quando fui trainee da Folha de S.Paulo, que o texto tem que ser o mais informativo e objetivo possível, sem impressões, com fatos. Deste modo, por que falar de você mesmo? O objetivo afinal não é a minha opinião, mas o que está acontecendo. (Apesar de que, na real, é o que eu vejo que está acontecendo que acaba sendo escrito.)

Hoje, olhando para trás, sei que essa regra foi um cinto de segurança extra que se usa até que se aprenda a dirigir direitinho, sem quebrar o pescoço do passageiro na hora de frear e sem subir na calçada na hora da baliza. Mas, uma vez que se aprende, tudo bem, você pode usar só o cinto regular, o que todos usam.

Aprendi a dirigir e depois desta primeira década no jornalismo, me libertei. Além do blog, fiz algumas reportagens publicadas em revistas e jornais em que fui figurante rápida ou até personagem fixa. Acho que não é o caso de ser protagonista ou escrever tudo sobre mim sempre, afinal de contas eu não sou pessoa pública ou ganhadora do Nobel ou miss bumbum, mas não acho que seja um pecado aparecer vez ou outra, uma vez a cada trimestre, semestre ou ano, ou, principalmente, quando achar que vale a pena.

No ano passado, comecei a estudar Escrita Criativa Não Ficção, um tema bastante popular hoje nos EUA e que existe no Brasil (aliás, diria que — alô auto-estima — ninguém escreve crônica curta como nós os brasileiros), mas não é muito discutido como uma área da literatura em si. Nos EUA, é. Este grande guarda-chuva da ECNF inclui, no lado mais voltado ao self, o ensaio pessoal e as memórias, e no lado mais distante do self, o ensaio propriamente dito, a biografia e a reportagem. Nada impede, no entanto, que se use a primeira pessoa também nos últimos três gêneros.

Um bom exemplo disso é a grande (em todos os sentidos) reportagem “A vida imortal de Henrietta Lacks”, que tem como mérito e problema justamente ter a autora como personagem. Na escola de jornalismo, aprendi que deve-se ter uma relação distanciada com a fonte. É o “melhor” para o trabalho final, é o “correto”, é “ético”. Rebecca Skloot, no entanto, ao investigar a vida e a família de Henrietta Lacks envolveu-se a ponto de amar e quase sair no braço com a filha da mulher imortal do título. Quando li, me incomodou muito. Ela falava eu, eu, eu o tempo todo. Como odiei aquilo! Mas, ao mesmo tempo, entendi que ela falava eu, eu, eu, porque ela viveu eu, eu, eu, com os personagens do livro que eram importantes para ela. E eu sei que isso, de acordo com a faculdade de jornalismo “não é certo”. Mas, pensando bem, se não fosse assim, ela conseguiria uma reportagem tão fantástica?

Mas o bicho pega mesmo é em outro gênero da ECNF. Hoje um amigo postou este texto no Facebook. Se você tiver preguiça de ler, eu te conto mais ou menos o que ele fala. Basicamente, o autor está de saco cheio da moda de memórias e critica jovens jornalistas de 20 anos que querem escrever sobre suas próprias vidas porque afinal o que se vive nos primeiros 20 anos de sua vida? (Considerando que nem todo mundo é o Rimbaud.) O autor pondera que há um grande apetite por esse tipo de texto — somos todos voyeurs –, portanto, a grande “vítima” é o jovem autor, que pode ter um, dois hits de começo de carreira, até tornar-se batido e entediante. E termina por dar a dica: se você não é tão interessante assim, não se preocupe, o mundo é enorme e há muitas histórias edificantes, maravilhosas, assustadoras, emocionantes a serem contadas. Conte essas histórias, não as suas.

Concordo. Há muita, muita, muita história no mundo. (Ê mundão!) Mas se a gente proibir a primeira pessoa, como fica David Sedaris? E Sherman Alexie? James Baldwin? Karen Blixen? Antonio Prata? Fabrício Corsaletti? Desculpa, eu não quero viver num mundo em que eles estão proibidos.

Ok, talvez os exemplos sejam um pouco extremos, mas e se eu, ao longo da apuração de uma reportagem, viver algo primordial para a minha história? Vou sufocar minha experiência para não sujar meu texto com a palavra “eu”?

Não estou, com isso, dizendo que a memória está liberada e que, por favor, abra um arquivo agora e comece a escrever a sua. Mas não acho, por outro lado, que deva ser proibida. Se você quiser, escreva a sua. Se for boa, por favor, publique. Se não, deixa pra lá (ou publique de toda maneira e ouça o que as pessoas vão dizer). Também não estou dizendo que você tem que me ouvir, por que, quem sou eu afinal? Apenas uma pessoa exercitando a primeira pessoa e que às vezes acerta, mas em outras erra.

Voltando ao texto do link, o autor cita a jornalista, escritora e professora universitária Susan Shapiro, que pede que os alunos escrevam sobre o momento mais humilhante de suas vidas. O autor parece concordar e criticar ao mesmo tempo a tarefa. Meu palpite é, para se exercitar estilo, faz sentido escrever sobre um tema que se conheça bem. E qual o tema que se conhece melhor?

A meu ver, o mais importante de tudo é que se escreva se há vontade. Nada como a prática. Se você for ruim, provavelmente vai melhorar. Pode até ficar bom. Ou ótimo. Se não, isso não vai te matar. Não me matou até agora.

Desde que o mundo é mundo, as pessoas estão escrevendo suas memórias em diários, que mais tarde podem ser usados em pesquisa, seja história, antropológica ou até mesmo na biografia do proprietário do caro diário. A diferença hoje, ao que me parece, é que há a internet. Ah, a internet, essa louca desvairada e divina maravilhosa!

Esta entrada foi publicada em janeiro 2, 2013 às 7:18 pm e está arquivada sob Jornalismo, Neurose, Vida na América. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

2 opiniões sobre “A primeira pessoa

  1. beatriz em disse:

    EU poderia ficar uma vida inteira comentando esse tema, porque a história da MINHA escrita é tentar sufocar o EU e não conseguir. até já tive texto barrado em revista literária por causa disso. normal. meio que desencanEI de escrever de outro jeito, e não sei se é verdade, mas me parece que esse monte de EU por aí não tem muito de biográfico, acaba sendo uma terceira pessoa de qualquer jeito. ou então todo mundo seria muito legal — admito que o sedaris deve ser legal mesmo — ou muito deprimido ou muito loser. será que é mesmo? e daí se a pessoa só tem vinte anos e fala de si no passado? acho to da essa preocupação meio bizantina “a nível de literatura”. “a nível de jornal”, ok: é terrível ler a primeira pessoa de gente como o reinaldo azevedo, crendeuspai! ali valia um recolhe-te à terceira e nunca mais me deixa saber de ti. fora isso, o seu EU é bacana. e mais ainda por não ser exatamente uma foto 3×4. sei lá se a isabelle mesmo achou a vizinha legal, mas pra mim virou uma cena. gostei da isabelle que cozinha pro marido escritor (ele usa mais a terceira, mas dá pra entrever alguma coisa da primeira em todos os mundos que ele cria). enfim, belle: vai aí!

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