Meu vício

 

Lady Gaga visita Assange: “Ela está uma gatinha nessa foto”

O primeiro passo pra se livrar de um problema é reconhecer que há um problema, certo? Pois bem: estou viciada. E meu vício é terrível. Tão terrível que tenho vergonha de admitir para mim mesma, ainda mais aqui, semipublicamente. É mais sujo que qualquer perversão sexual, mais deprimente que qualquer prática obsessiva solitária.

(Penso, volto atrás. Me pergunto: “por que comecei ese assunto mesmo?” Ah, sim, é importante pra minha recuperação, preciso admitir.)

Estou completamente viciada em comentários de leitores em notícias de fofoca. Pronto, falei.

O prazer que sinto ao abrir uma notícia como “Lady Gaga visita Julian Assange na embaixada do Ecuador” e ler abaixo do texto mensagens como “Lady Gaga está uma gatinha nesta foto” ou “Ficou gatinha mesmo, e além disso se mostrou uma mulher antenada” é mais que sensual — celestial, eu diria.

Gosto principalmente do estilo positivo. Quanto mais edificante melhor. Para “Ex-gorda, Kelly Osborn é fotografada de biquíni”, um “Ela está bem sim, mas esse biquíni de vovó, vou te contar hein Kelly!”. Para “Aos 50 anos, Zilú Camargo exibe pernas, mas põe filtro na celulite”, um “Continue assim, Zilú, em breve você vai encontrar um belo garotão que vai te amar e te fazer feliz, ao menos enquanto teu ex-marido estiver pagando tuas contas”. Não é maravilhoso?

O desejo de ler os comentários é tão forte que, muitas vezes, passo direto pelo texto da “notícia” pra ler o que o mundo está falando sobre o namorado novo da atriz da novela, o biquíni que caiu durante o mergulho no mar do Leblon, as neuroses sobre envelhecimento da modelo de 19 anos. Difícil é lidar com a frustração que me vem quando não há comentários — mais comum do que se pode imaginar.

Curioso pensar que a minha relação com o comentário do leitor tenha chegado a esse ponto. Quando trabalhei em um site de notícias nas áreas de política e economia, entre 2008 e 2009, eles geralmente representavam terror puro. Nestes assuntos, críticas a respeito da linha editorial do veículo só não são mais comuns do que as mensagens sobre eventuais erros ou imprecisões das reportagens, culminando no comentário espírito de porco que, em casos extremos, pode levar à demissão do jornalista.

Por outro lado, foi nesta “era do terror” do comentário que tive minha primeira experiência sentimental. Fui cooptada para ajudar na operação RIP Michael Jackson e minha função seria justamente liberar os comentários dos leitores. Meu trabalho seria uma rápida triagem para evitar palavrões e insultos. Topei sem grandes expectativas positivas ou negativas e, dez minutos depois do início da realização da tarefa, ela veio. Uma lágrima. Não lembro do texto exatamente, mas era algo como “Michael Jackson sempre ficará no meu coração, pois foi ao som de Rock with You que o grande amor da minha vida começou. Sou casada e muito feliz com meu marido há 20 anos e sempre lembrarei de Michael Jackson e do disco Off the Wall”. Sério, alguém que cita Off the Wall pra falar do amor de sua vida faz explodir as artérias de qualquer humano que entenda o valor do romance e da música pop.

Mas, é claro, nem tudo são flores. Fico irritada, perdida, confusa, magoada, com comentários maldosos. Fico deprimida com a violência que pode ser gerada em determinados espaços de comentário e no que eles podem culminar– como é o caso absurdo e ultrajante que fez com que André Caramante saísse do Brasil.

Talvez por isso mesmo as notícias de fofoca sejam o foco do meu vício e as mensagens positivas sejam o meu combustível. No final das contas, elas fazem com que o leitor se sinta mais próximo da “””””celebridade”””””, como se tivesse poder de palpitar sobre a vida da atriz/modelo/cantora como se fosse a da vizinha. E eu, sou aquela fuxiqueira do bairro que fico só ouvindo.

 

Esta entrada foi publicada em outubro 9, 2012 às 11:48 am e está arquivada sob Ai esse comportamento!, Jornalismo, Neurose. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

4 opiniões sobre “Meu vício

  1. ricardo em disse:

    Eu fui direto aos comentarios! Pena que nao tinha nenhum.

  2. vamos lá então

    “cara Isabelleepoque: minha namorada me mandou esse teu texto porque sabia que eu ia adorar (desde o título do blog, pois adoramos – e compartilhamos, e perpetramos – trocadilhos).

    mandou esse texto especificamente porque ela sabe que me comovo com certas coisas cotidianas, difíceis de categorizar (até agora não consegui); e porque uma das primeiras vezes que me abri com ela e relatei esse tipo de comoção foi justamente a propósito de um comentário num vídeo no youtube.

    num vídeo qualquer, não: era um vídeo de futebol. cara belle, se você acha virulentos os comentários da seção de política, não sei se já passou pela de esportes. é feio o quadro.

    pois bem: era o vídeo do lance tal, da partida tal, de x anos atrás, entre os times y e z. após ver o vídeo, que tinha procurado deliberadamente, desci para os comentários e encontrei aquele banho de sangue, guerra de torcidas, xingamentos, tudo muito brutal.

    foi quando, em meio a todos esses, surgiu o tal, algo como: ‘gostei muito de rever essa partida. obrigado por postar!’. caramba, chorei mesmo. como chorei. agora mesmo, só de relatar, marejam meus olhos. assim como de ler o do casal of the wall que deu início ao teu vício, que lindo mesmo.

    falando em marejar, marulho é uma palavra que me desperta ternura também; outro passatempo compartilhado por mim e minha namorada (ambos de um jeito ou de outro ligados às Letras) é o de colecionar palavras. mas essa é uma outra história.”

    • puxa, que demais, dimitri!! o seu comentário é do tipo que faz chorar e me diz porque escrever um blog vale a pena. obrigada por ter me contado um pouco sobre o mundo dos comentários de esportes. é uma seara inexplorada por mim.🙂

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