Vocabulário

A língua inglesa tem palavras maravilhosas. Uma das minhas preferidas é “terrific”. Acho linda, cheia de vida, exatamente o que ela significa, uma maravilha! E nada como um “terrific” bem animado, bem pra cima, bem cheio: “This is terrific!” Infelizmente, pra mim, nem tão terrific assim.

Terrific é uma palavra cheia de personalidade e, para usá-la, é preciso bancar. Não que eu me ache sem graça ou sem estilo, mas eu sou gringa, tenho pouca intimidade com a língua, e me sinto presa a um vocabulário mais enxuto e comum. Toda vez que eu tento falar “terrific” me sinto uma fraude. É como se um japonês começasse a exclamar loucamente “ôxe!” Não cola.

Sinto a mesma coisa com um monte de termos legais e todos um pouco datadas. Swell, neat

E nem só de palavras “fofas”, “positivas” é feita o meu desconforto. O mesmo sentimento de falta de propriedade ocorre com xingamentos, palavrões. Em português, eu na verdade me martirizo por ter a boca mais suja do país, sempre pronta a soltar uma bomba a qualquer minuto. Em inglês, por outro lado, não corro esse risco, sou uma lady. Embora sinta que este não-hábito modifica um pouco a minha personalidade e me distancia cada vez mais da Elizabeth Taylor — essa, uma boca suja de primeira.

Mas hoje eu achei que ganhei uma palavra nova, talvez o primeiro insulto verdadeiramente meu: “You creep!”

(Eu não falei alto, mas berrei internamente. E foi natural. E genuíno. E senti até que meu inglês melhorou.)

Tem um cara no meu bairro que é muito, muito, muito estranho. Na primeira vez que o vi, ele estava empurrado a cadeira de rodas de uma senhora. Ou pelo menos eu achei que ele estava. Ele sorriu e deu bom dia. Eu estranhei, passei reto. Depois me culpei — acostumada com violência na rua, pensei, acabei sendo grossa com o simpático povo chicagoano que cumprimenta estranhos na rua.

Munida por esse sentimento de arrependimento, resolvi ter uma atitude mais aberta e serena. Até que, hoje, o cara sussurrou alguma sacanagem incompreensível quando cruzou comigo na rua.

Pensando melhor, acho que “creep” é pouco. O que pode ser mais preciso? Ass? Dick? Neste caso, todas essas palavras se tornam minhas, genuínas, verdadeiras. Eu conquistei direito sobre elas. E logo logo me aproximo de Liz Taylor.

(Acho que meu inglês ainda pode melhorar muito.)

Esta entrada foi publicada em outubro 2, 2012 às 5:25 pm e está arquivada sob Ai esse comportamento!, Chicago, Vida na América. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

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