Frescar

Quatro dias antes de vir ao Brasil depois de um ano em Chicago, começou a minha agonia. Enfim, casei com a cidade e já sinto saudades dela. Voltar ao Brasil agora passou a significar macular essa relação, afinal, eu relembraria tudo o que gosto no meu país e que não tenho na minha cidade-residência. Além disso, na volta dessa rápida viagem com fins oficiais burocráticos e extra-oficiais sentimentais, começaria meu segundo e último ano como residente temporária nos EUA. Meu maior temor era transformar esse período em um longo e doloroso ano de despedidas.

Demorei a ver que esses eram os reais motivos; eles estavam fortemente maquiados por um novo medo de avião. Comecei a visualizar minha aeronave em queda e a sentir o coração do tamanho de um feijão. Até a música que grudou na minha cabeça e não queria sair jamais foi “There is a light that never goes out”, dos Smiths, com uma clara mensagem mórbida. Para quem não conhece, aqui vai o refrão:

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure and the privilege is mine

Ou seja, morte, morte, morte.

Fiz as malas desajeitadamente, me despedi do meu marido, que se juntaria a mim dali a uma semana, e parti. Uma taxista indiana me levou ao aeroporto. Saí com bastante antecedência prevendo o pior trânsito do mundo, afinal era uma sexta-feira de verão, e, tensa, mantive-me calada. Até que… (Taxista é taxista em todo lugar.)

– Era o seu marido?, me perguntou

– Sim, era.

– Você casou por amor ou foi um casamento arranjado?

– Por amor.

– Que sorte!

Dali ela me contou que havia se separado no começo deste ano, uma grande vergonha para sua família. Mas não teve jeito, o casamento arranjado foi bem mal feito, não contaram para o agora ex-marido o que ela gostava de fazer e como ela era de fato. Não se arrependia, e o que queria mesmo era ficar solteira pro resto da vida, voltar pra Índia e abrir uma loja de roupas. Mas isso era um outro problema, porque os pais, com quem ainda morava, jamais aceitariam voltar ao país com uma filha divorciada. E ela, jamais abandonaria os pais que acabaram de perder um filho, seu irmão.

Desejei boa sorte, indiquei o site da Susan Miller (depois que a motorista me perguntou se eu gostava de Tarô), e parti para o check-in.

Horas depois, no voo tranquilo, troquei o rivotril que planejava tomar há dois dias por uma série de comédias, a maioria românticas, que foram alternadas pela rezinha anti-acidentes aéreos aprendida aos 10 anos. E assim, foram minhas próximas 10 horas, até em chegar a São Paulo, quando começariam meus primeiros choques culturais.

Na esteira de bagagens no aeroporto de Guarulhos, um viajante se sentiu no direito de manter uma conversa sobre o temor de ter perdido sua bagagem comigo. Claramente ainda faltavam muitas malas por vir, mas ele não se conteve. Eu respondi apenas com olhares inexpressivos, o que definitivamente não o intimidou. Dali nasceu a primeira comparação. O único americano que na mesma situação não desistiria da interação seria um dos loucos do trem. E esse pensamento, de certa forma, me fez sentir um certo alívio e serviu como uma faixa de “Bem vinda, Isabelle”. Ela continuou e minha última resposta foi finalmente um sorriso de tchau.

O segundo choque, no entanto, não seria tão simpático. No portão do voo pra Fortaleza, uma passageira de cerca de 20 anos e sotaque cearense, um pouco mais agudo que o meu, reclamava sobre a mudança repentina de portões. “Que vergonha, que desorganização, só no Brasil.” Alguém, na mesma hora, comentou que o Brasil estava perdendo pro México na final do futebol nas Olimpíadas. “Que vergonha, perdendo pro México, esse país não presta nem no futebol.” Após ouvir que o voo, SP-Fortaleza, estava atrasado, “que vergonha, que horror, que desorganização. Voltei de Vancouver, estou morta, e agora tenho que ficar esperando”.

Que vergonha dessa moça. Que vergonha de ela ser uma representante no meu país no exterior. Se tem algo que eu detesto é ver brasileiro deslumbrado com outros países e falando mal do Brasil desse jeito. Tá com vergonha? Não volta. Fica. O Brasil é ruim, mas o resto do mundo também. O resto do mundo é ótimo, e o Brasil idem. Pra mim, é simples assim.

Guardei toda a minha irritação dentro da bolsa e ignorei o resto das considerações dessa comentarista de portão de embarque. Demais pro meu medo de avião.

Outros personagens ali naquela situação me chamaram a atenção: uma outra moça, cheia de sacolas, terninho com cara de escritório em um sábado, munida de ipad e muito sorriso. Um sorriso assim de boa samaritana, e digo isso sem nenhum cinismo. Esse voo estava cheio de gente que visivelmente viajava pela primeira vez na vida. Ao menos 20 deles foram auxiliados por ela.

Assistir a isso foi tão bom pra mim, mas tão bom. Reconfortante. Fiquei feliz em chegar ao país, meus medos reais, e o imaginário também, se dissiparam. O aperto do meu peito soltou.

Fui contaminada. Me compadeci de uma família que sofria com dor de ouvido na descida. A mãe, segundo contou à samaritana, havia acabado de perder o pai, naquele mesmo dia. Saiu de São Paulo para o Ceará para o enterro, que aconteceria no dia seguinte. Quando o comandante anunciou a descida, a mulher instruiu o marido e a filha a usarem os headphones distribuídos pelas comissárias de bordo, para proteger os ouvidos. Achei curioso e resolvi intervir. Falei pra ela: “mastiga, abre e fecha a boca, melhora.” Demorou pra entender. Quando entendeu, me agradeceu umas 60 vezes. Olhava por entre as poltronas e sorria. Dizia: “funcionou. Obrigada.” Até tomou a liberdade de sentir-se cúmplice. Quando o marido se mexia na cadeira fazendo barulho com o couro do assento, ela “frescou”* com ele: “Vai no banheiro homem, que é isso?!” E olhava de novo pela fresta, e sorria pra mim.

Ali eu entendi: cheguei no Ceará e o pessoal já tá frescando. O Ceará é isso. Do que importa medo de avião, saudade antecipada, a dor do adeus, o fato de eu não me reconhecer na minha cidade ou o medo de refazer a vida na volta? Sim, eu não estou voltando de vez, mas esse semi-retorno funciona como um “cenas do próximo capítulo” do que será minha vida real em um ano. A resposta é que nada importa. Tá todo mundo frescando.

Aulete

       Não foi encontrado o verbete “frescar”.

Do Wickicionário

frescar

Português

Verbo

fres.car

  1. (Regionalismo, Cearátirar um sarro, tirar onda

Conjugação

Esta entrada foi publicada em agosto 15, 2012 às 8:49 pm e está arquivada sob Ai esse comportamento!. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

Uma opinião sobre “Frescar

  1. Arnaldo em disse:

    Belle, seus textos estão cada vez melhores. Muito bom! bjs

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