Dr. Detroit

Detroit já foi uma das cidades mais importantes dos Estados Unidos. Ou melhor, já foi um de seus símbolos: o lar da potente indústria automotiva. E, para quem conhece o país, sabe o quanto isso é importante pra cá, afinal 99.99% das cidades cidades americanas foram construídas para serem cortadas por estradas, sem muita atenção ao transporte público.

Mas isso já faz bastante tempo e, por mais que as cidades continuem cortadas mais por ruas, avenidas e estradas do que por trilhos de trem, a indústria local anda bem caída. Assim como Detroit, que a cada ano encolhe mais. A crise dos EUA é coisa relativamente nova, nós ouvimos bastante sobre o tal subprime que derrubou o país há menos de cinco anos, mas a automobilística é muito anterior. Diz respeito ao desenvolvimento da indústria asiática, e quem assistiu a Gran Torino sabe bem do que estou falando.

Detalhe na estação de trem abandonada em Detroit

Pois é em Detroit que a história de Gran Torino é recontada todos os dias. Passei um único domingo lá, mas que foi o suficiente para me deixar com uma sensação estranha. É uma cidade interessantíssima, mas de cortar o coração. Já foi riquíssima, hoje está um tanto quanto na pior. E meu amigo que me levou lá e mora no Michigan disse que já foi hostilizado por dirigir um carro japonês.
Com o enfraquecimento da indústria local, a cidade começou a encolher. As pessoas saíram deixando tudo para trás, inclusive suas casas. Então, é comum dirigir por bairros e ver enormes construções totalmente abandonadas, cachorros deixados pra trás, mato alto. Há um ou dois anos, a prefeitura começou a promover o que eles chamaram de “right sizing”, uma espécie de concentração de Detroit em alguns bairros. A medida foi polêmica desde seu anúncio e ainda está em fase inicial. Paralela a ela, há outros projetos para aproveitar essa “terra abandonada”, como as fazendas urbanas.
Dizem que há também uma forte cena cultural, e o Jack White está aí para nos provar, mas eu não consegui encontrar as evidências de algo genuinamente novo acontecendo. (De novo, um dia é pouco.) Mas vi o Heildelberg Project, um projeto de arte que, assim como as fazendas, ocupa com instalações permanentes e renováveis terrenos abandonados e casas de quem concordou em participar. No final das contas, pelo que pude ver e ouvir, a coisa deu um certo orgulho e sentido a quem vive ali.

Heidelberg project

* * *
Detroit me deixou toda cheia de sentimentos misturados. O maior deles, certamente, foi a euforia do toc de momento histórico, por ver de perto uma cidade que se transformou. Por outro lado, uma espécie de “pena” da juventude que está lá. E, imediatamente, um sentimento de culpa e repressão pela pena anterior. Afinal, quem disse que quem mora ali é infeliz? Quem disse que não há nada de bom na transformação? Afinal, a criatividade aparece na adversidade, certo?
Vai saber. O que eu sei é que é muito difícil ver algo diferente e grande historicamente com distanciamento, sem julgar.
* * *
Agora que raios tem a ver esse título com o texto? Explico: meu pai, médico, teve muitos colegas que fizeram residência em Detroit. Logo, eu sempre ouvi falar sobre a cidade, desde criancinha. Pra completar, tem um célebre filme com Mr. Dan Aykroyd e Mr. James Brown. No trailer oficial, uma menção à indústria nacional vs. importados.
Esta entrada foi publicada em agosto 9, 2012 às 4:40 pm e está arquivada sob Cinema, Economia, Estados Unidos, Vida na América. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: