A minha vizinha

Faz nove meses que moro no mesmo apartamento, na parte norte de Chicago. É um prédio bem simpático e bem classe média, com apartamentos iluminados e espaçosos divididos em seis blocos de três andares cada. Em cada andar, dois apartamentos, e quase todos ocupados. Eu nunca interagi com nenhum vizinho diretamente, mas pude aprender um pouco de dois deles: o de baixo, aqui já mencionado, e a da frente.

É ela que está na minha cabeça. Nunca a vi, mas sei de muita coisa.

Uma senhora de idade avançada, me diz o andador, mas com a voz muito firme. É dona de um gato chamado Peabody que, desconfio, já fez xixi no hall da frente. Há muitos e muitos livros empilhados de maneira ultradesorganizada em frente à janela da cozinha. Ela paga para que pessoas façam compras e entreguem no terceiro andar. Nunca a vi descer. Mas ouvi muita gente subir, além do entregador: fisioterapeutas de uniforme, faxineiras, e outras pessoas que não consegui identificar a função.

Semana passada, ou há duas semanas, não sei direito, vi um grupo de pessoas subindo juntas. Eram paramédicos. E a vi também, pela primeira vez, de costas, sendo levada em uma espécie de maca-cadeira. Estava desacordada, a cabeça jogada pra trás. Tinha o cabelo branco amarelado, mas bem brilhante e bonito, e eu fiquei tensa, agitada, torcendo pra que não fosse nada grave.

Ficou no hospital alguns dias e descobri, dias depois, que a torcida não adiantou. Ela morreu.

Eu já me sentia mal por nunca ter sido capaz de bater à porta pra me apresentar, dizer que se precisasse podia contar comigo, que sempre estava aqui, em casa. Depois que soube da morte, essa culpa aumentou muito e virou quase saudade. De tanto ouvi-la ao abrir a porta para as visitas, ou chamar o gato de volta pra casa quando escapulia, comecei a gostar dela e, no fundo, achava que a conhecia e que ela me conhecia também — ou pelo menos eu imaginava uma velhinha muito legal que tinha um gato com um nome divertido, a voz forte, o gosto por doces e por flores (que aprendi ao bisbilhotar as compras entre a minha porta e a dela). Também torcia para que ela achasse interessante ter uma vizinha violinista amadora, ou, pelo menos, que não me odiasse pelos arranhados do meu arco e que me perdoasse ao ouvir os bons discos que eu punha pra tocar de tarde.

Agora, que nada disso mais importa e só existe na minha cabeça, fico me perguntando: quem vai cuidar daquela janela de livros?

Quantos invernos ela terá passado aqui?

Esta entrada foi publicada em junho 26, 2012 às 3:45 pm e está arquivada sob Ai esse comportamento!, Chicago, Neurose, Vida na América. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

9 opiniões sobre “A minha vizinha

  1. Márcia Pinheiro em disse:

    Lindo, Isabelle. Um beijo. Márcia

  2. Lindo texto, Belle.

  3. que lindo o teu blog, estou encantado.
    vai q se vc tivesse descido e dado um oi as coisas fossem diferentes…

    abraço.

    • Obrigada, Antônio. Eu fico achando que poderiam ser mesmo. Mas talvez seja só fantasia minha. De todo modo, é muito louco ver o processo de “desmonte” da casa dela pelo zelador e sua equipe. Semana passada, colocaram a maior caçamba que vi na minha vida na rua bem embaixo da escada do nosso andar e jogaram, DO TERCEIRO ANDAR, as coisas dela. Sacos de objetos, cadeiras, mesa, aspirador de pó, um horror! Eu fiquei péssima, achei o maior desrespeito do mundo, e iniciei um processo de luto meio surreal (afinal eu não era nada dela). Mas acho que se é desse jeito, se não tem família pra sentir a morte dela, que eu me importe.
      Bjos.

  4. E do gato? quem vai cuidar?? =(

    • Na verdade, eu não contei aqui, mas vi um caminhão de alguma sociedade de animais que eu não lembro o nome estacionado na frente do prédio. Eu acho que era o resgate do gato.

  5. belle, mesmo sendo uma sentimentalóide eu acho que por mais que você nunca tenha dito nada a ela, acabou dando uma sobrevida à dona dos livros com um mortuário bonito que nem esse. será que um paramédico ou um entregador de doces dedicou umas linhas em memória da dona do peabody? (e o que quer dizer peabody, aliás?)
    beijo

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