Pra dentro

(A troca de correspondências continua. Eu respondo a carta da Helo.)

De Isabelle Moreira Lima, Chicago
Para Heloisa Lupinacci, São Paulo

Helozita,

Agora sou eu que peço desculpas pela demora. Mais de três semanas, não é isso? Acho que o problema é que você me calou com uma carta bonita demais. Não só a mim, aliás, que eu sei que muita gente – merecidamente – se derreteu.

Gostei muito do que você falou, de tudo. Acho que muita coisa eu já sabia no coração, mas nunca tinha aberto os olhos para ver e por isso eu te agradeço muito. Acho tão bom que você, eu e todo mundo que a gente conhece e gosta do mundo jornalistA vive outras coisas que não só o trabalho. Desconfio que isso é o que mantém a gente humano num dia a dia que pode ser tão maçante quando fascinante. Por isso acho que hobby é coisa pra ser levada a sério e a gente deve sempre tentar aprender algo, nem que pareça ser a coisa mais inútil ou impossível do mundo. É assim que eu vejo minha tentativa de aprender a tocar violino depois dos 30, por exemplo.

Agora, o rio dentro de mim, ah esse rio! Esse rio é fogo, Helô! Porque tem uma hora que, se você tenta fazer com que ele seque, ele mostra a que veio. Eu comecei com os “assuntos sérios” porque era o jeito. Não era a minha, minha cabeça é meio virada pro lado leve e o lindo lago do amor, mas era o que tinha e, sabe como é, só tem tu, vai tu mesmo. Mas aí, fazer o que, de tanto fazer, eu aprendi como se faz. E quando eu dei um tempo, senti saudades. Resultado: depois de três meses sofrendo porque não tinha nenhuma matéria pra apurar, meus olhos brilharam com a encomenda de pauta supostamente mais entendiante do mundo, que envolve mercados emergentes, private equity (anh?) e fundos soberanos. Só um comentário: ai, ai.

Eu não sei quem eu sou e do que eu mais gosto, o que eu quero fazer e o que eu quero saber. E já sofri muito com isso. Mas uma coisa eu decidi: não quero descobrir. O meu problema, até agora, é que analiso demais. Sempre achei que tinha que ser especialista e sofri por não achar meu assunto, a coisa em que eu queria me especializar. Pois quer saber? Pra quê isso? Tem tanto especialista já no mundo! Eu quero é me divertir e aprender mais. Mais de qualquer coisa, de qualquer área, com tanto que sirva pra mim. Se pintar economia, política, eleições, vamos nessa! Se pintar comida, sapato, cinema, oba! É um rio doido, que às vezes parece até mar, às vezes é um psicinão. Acho que é um rio que corre ao contrário.

Acho que tô meio olhando pra dentro demais, mas eu fiquei pensando durante muito tempo em tudo o que você escreveu e deu nisso. Tem esse meu sabático maluco também, que ora eu acho a coisa mais sem pé nem cabeça, ora eu acho um presente dos deuses. Sabe da última? Garota, eu vou pra Califórnia. Não vou viver a vida sobre as ondas, mas vou conhecer Hollywood. Trabalho, entrevistar ator e produtor de cinema. E, eu sei, mais uma vez vou me sentir foca e deslocada e vai ser sensacional. Pra quem pula de galho em galho, área em área, isso acontece. Mas o couro engrossa e a gente cria um óleo de peroba na cara que é uma beleza. Aqui nos EUA tem um problema, uma hora ou outra o inglês vai embora e me abandona. Mas eu sempre penso numa coisa: em português eu sou muito mais inteligente. E isso é meu chão. Depois de um tempo, qualquer rumba, samba ou tango a gente dança. E quando eu digo a gente é a gente mesmo: você, eu e as jornalistas que você citou na última carta, que são demais.

Outra coisa nova que tem rolado é que agora eu sou estudante. Além do violino e das minhas incursões à sinfônica que me proporcionam meu auto-curso de apreciação e história da música, eu estou estudando antropologia na universidade. Talvez tenha sido o melhor tema pra estudar quando se estar fora do habitat natural e com o olhar mais aguçado pra tudo o que é diferente. Recomendo fortemente a quem puder. De novo, faz olhar pra dentro, pensar na sua cultura em relação à outra (no meu caso, a americana), e, de certa forma, voltar-se pra dentro, pra si mesmo, mais uma vez. Com tudo isso, tenho me sentido num intensivão de terapia. Às vezes o lance rola fundo e dói. Mas, na maior parte do tempo, acho que tô me descobrindo. E vejo isso como um grande projeto.

Agora chegou a hora de pedir desculpas pelo egocentrismo dessa carta. E de pedir notícias suas. Me conta quais aventuras têm corrido no seu rio. Uma delas eu já sei e quero te dar os parabéns: achei chique e fino você no Blog do IMS. Achei chique e fino pro Blog do IMS te ter lá. Arrasaram!

Um beijo grande com amor e saudade,
Belle

PS: acho que vi dois filmes que me estimularam muito recentemente. “Bill Cunningham New York” e “Jiro Dreams of Sushi” sobre dois homens que fizeram da vida uma coisa singela e grande ao mesmo tempo. Quer dizer, me fizeram pensar que a gente pode fazer muito com pouco. Tenta assistir pra gente resenhar!

No fundo, eu sei, nunca vou deixar de me sentir foca. Mas tudo bem, pode até ser fofo, né? Olha essa!

Esta entrada foi publicada em maio 11, 2012 às 12:15 pm e está arquivada sob Ai esse comportamento!, Chicago, Jornalismo, Neurose, Pen Pals, Troca de cartas. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: