Ex-prodígio

Não é fácil ser uma ex-criança prodígio. Quando eu tinha 10 anos, eu tinha tudo, tinha o mundo. É verdade que eu era gordinha, muito ruim em esportes e sempre sobrava no banco na hora de jogar vôlei ou qualquer outro jogo de equipe. Mas isso era o de menos pra mim.

Aos 10, eu ouvia clássicos do rock, jazz e música erudita. E, mais que isso, eu tocava piano. E bem. Todo mundo ficava de queixo caído, eu me mostrava mesmo, e ainda arranquei alguns dinheiros da minha mãe que insistia que eu tocassse nos jantares para os amigos dela e do meu pai.

Eu também tinha um poder de argumentação incrível e era comum que ficasse amiga, além dos meus colegas, das mães deles. Li muito na infância e tinha o estranho hábito de brincar com enciclopédias, como se faz hoje com a internet. E, juro, não era chata. Longe de ser a gatinha da escola, eu conquistava geral com piadas e mais piadas.

Mas o triste é que criança cresce e isso inevitavelmente aconteceu comigo. O que era totalmente fora do comum e um charme pra uma menina de 10 anos é nada mais que o normal pra um adulto. E, verdade seja dita, eu fui vítima do que gosto de chamar de “fase da demência”, quando comecei a me interessar pelo sexo oposto e, para ir atrás deles no Ceará dos anos 1990, isso quer dizer entrar de cabeça no forró e no axé e esquecer todo o resto.

Passada essa fase, tenho tentado recuperar o tempo perdido, mas não é fácil. O sabático chicagoano tem me ajudado em dois projetos: ler os livros que sempre-menti-nunca-li e o violino, meu grande sonho de infância nunca alcançado. Por enquanto, o primeiro projeto vai bem, estou na página 412 de Anna Karenina (em inglês, que fique claro!). Já o segundo, o negócio é mais complicado. Tenho aulas semanais de 45 minutos e pelo menos 30 minutos de práticas diárias do instrumento. E como é difícil. Pra alguém que cresceu ouvindo música, entendendo de música, sabendo ler partitura, que tem bom ouvido e sempre conseguiu impressionar, é totalmente chocante a mudança que aprender um instrumento como o violino, com mais de 30 anos, traz.

É duro, mas vamos lá. Resumindo, eu sou péssima.

Eu me esforço, levo a sério, pratico tudo, não deixo passar nem os estudos mais entediantes, mas não consigo fazer com que o negócio soe bem de jeito nenhum. Parece um mistério e o som continua saindo como o lamento de um roedor em processo de morte lenta. Mas, aposta feita comigo mesma, não vou desistir. A meu favor, tenho um grande incentivo: na última aula, aprendi a primeira música de verdade (e não algo inventado parte do método), um minueto de Bach. Abaixo, no vídeo, crianças inglesas executam essa peça, acreditem, 7 mil vezes melhor que eu.

Esta entrada foi publicada em abril 25, 2012 às 2:56 pm e está arquivada sob Chicago, Música, Vida na América. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

5 opiniões sobre “Ex-prodígio

  1. ligiadiniz em disse:

    Gata, malzaê, mas seu charme e humor não são nada normais nem comuns em adultos, não!

  2. Evie em disse:

    Esqueceu de dizer que escreve bem demais. Amei o texto e o vídeo (sou boba pro lado de criança, uma magia). Beijo.

  3. MiniMimas em disse:

    Zazá, Anna Karenina também é uma falha na minha formação. Vai com fé, um dia, quem sabe, eu te acompanho…

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