É a música?

“É a música, né? Quer que eu tire?”, dizia a minha mãe sempre que eu, do alto da minha adolescência, explodia em lágrimas dentro do carro por algum motivo que, obviamente, não tinha nada a ver com a música que tava tocando — possivelmente um hit do fim dos anos 80 da Sade, ou um sucesso completamente bizarro de Emílio Santiago. Mas ela tinha certeza de que aquela música, que poderia tocá-la tão profundamente, também tinha me atingido.

Apesar disso, eu cultivava a coisa de ouvir música para chorar. Como muitos adolescentes dos anos 1990, tinha o hábito de gravar fitas e, invariavelmente, eram temáticas: música para um sábado de sol, música para dançar e, a favorita, com muitos volumes, “música para chorar”. Lembro de um dos volumes mais executados no meu gravador, com “How deep is your love”, dos Bee Gees, e “Hard to say I’m sorry”, da banda Chicago. Só essa memória já dói meu peito. Mas, naquele caso, a coisa rolava intencionalmente. Eu queria chorar, curtir uma deprê adolescente, portanto, ouvia música que estivesse ligada a uma ideia de dor de cotovelo – mesmo que não tivesse o objeto do desejo inalcançável ou que não houvesse perspectiva de pé na bunda, nem de pé, nem de bunda.

Ultimamente, revelação bombástica, isso parece ter voltado e eu tenho gostado muito de chorar ouvindo música. Mas a coisa mudou de figura, e eu choro quando me surpreendo, quando um som me arrebata, quando me apaixono. Nas últimas semanas, duas peças derreteram o meu coração: o terceiro movimento da quinta sinfonia de Shostakovich e a Valsa, de Ravel. Colo aqui os videos. Espero que você também chore.

Aqui vai o terceiro movimento, Largo, de Shostakovich

 

E agora uma versão para orquestra da Valsa de Ravel.

 

Se você, como eu, ouviu Ravel pela primeira vez na infância, na Globo, em uma apresentação do Bolero, e depois disso não teve mais muito contato, deve ter ficado chocado. Pra mim, é o som do amor e da ideia de romance que durou por todo o século 20. É o pai de gente como Gershwin e Tom Jobim. Ele e Debussy, verdade seja feita.

Mas o mais interessante sobre essa peça especificamente, a Valsa, é que ela foi composta sob encomenda, para um Ballet, e, quando pronta, foi renegada por não ser um “ballet”, mas a “ideia de um ballet”. Anh? Pra mim, de novo, é o amor. Em ondas, em espirais, crescendo, diminuindo, indo e vindo.

Aqui, uma versão para dois pianos, com a Martha Argerich e o Nelson Freire.

 

E o grande, incrível, único, espetacular, incrível, doce e louco Glenn Gould.

Esta entrada foi publicada em abril 17, 2012 às 8:34 am e está arquivada sob Música. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

Uma opinião sobre “É a música?

  1. Marcionília em disse:

    Minha fita para chorar era Roxete.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: