Cheiros e ruídos

Eu já sabia lá dentro, fundo no coração, mas foi preciso sair do país pra eu me sentir como eu sou realmente, classe média. Aqui em Chicago, eu lavo a minha roupa com a comunidade em uma lavanderia pública, fico atenta às promoções dos supermercados e sou super adepta do “do it yourself”. Mas o bicho pegou mesmo foi dentro de casa. O que escancarou a minha realidade classe média foi a relação que estou travando com os vizinhos de baixo.

Nunca os vi, sempre impliquei.

Morei uns quatro meses na santa paz de quem não tem vizinhos até que um dia eles chegaram. O primeiro sinal de quem realmente são foi o ventilador, ligado pela primeira vez no auge do inverno, de menos 20 graus Celsius, e jamais desligado. Demorei pra saber o que diabos estava vibrando a minha cama e custo a acreditar que eles estejam usando o aparelho todos os dias assim desde então.

Depois, a maior paixão por música que um ser humano pode ter. Um amor assim tão grande que chega a ser impositivo aos outros, num volume inimaginável e, pior, com repetições infindáveis. Não consegui identificar o hit número um da Billboard dos vizinhos de baixo, mas talvez seja algum gangsta rap. Começa às 7h, termina de noitão. Algumas vezes, rola essa música E televisão ao mesmo tempo, em um volume que pode ser ouvido até por quem não escuta, graças às vibrações explosivas.

Meu marido tem um palpite: não é rap coisa nenhuma, é videogame. Se for, meu deus, que existência louca é essa?

Mas aí, o que será que eles pensam de mim, né? Eu estudo violino e sou, sem nenhuma falsa modéstia (rará!), muito, muito ruim. Dentro do meu programa de autoeducação musical, fico ouvindo todas as peças que serão executadas pela Sinfônica de Chicago. Costumo ligar a máquina de lavar louça de madrugada e fico quase o dia todo dentro de casa (trabalhando ou estudando, que fique claro). Falo sozinha em um idioma estranho (pra eles), e da minha casa saem os mais loucos cheiros de comida alienígena (de novo, pra eles). Devem achar que sou alguma senhorinha vinda de um povo exótico.

Dizem que você pode conhecer as pessoas bem pelo lixo que produzem. Eu concordo, mas acho que os ruídos e os cheiros podem falar muito sobre uma pessoa. Ainda que falem errado.

Esta entrada foi publicada em abril 16, 2012 às 3:31 pm e está arquivada sob Ai esse comportamento!, Chicago, Neurose, Vida na América. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

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