Pascoal

Cheguei à conclusão de que a Páscoa, como vivemos no Brasil, só no Brasil. Talvez em Portugal também, vai. Ou não. Explico.

Pela primeira vez longe do país em muitos anos justamente neste período, eu pude perceber pelas fotos dos meus amigos que a Páscoa do brasileiro, ou melhor a Semana Santa, tem na sexta-feira da Paixão (ou do peixão, na maioria dos casos) o seu dia mais importante. É neste dia que a família se reúne para almoçar um bacalhauzão esperto, cheio de azeite, em uma das 872 mil variações portuguesas catalogadas. Com natas, com ovos, com ovos e natas, com brócolis, com pimentões, com azeitonas e ovos e natas, com tomates, mais azeite, e o que for.

E, se o grande evento é o bacalhau, um bolinho de bacalhau antes, um vinhozinho verde durante, e um pastelzinho de Belém com um vinhozinho do Porto depois cai bem pra rebater, certo? Então tá fechado, sexta-feira da Paixão por Portugal. Quem inventou isso? Em Portugal é assim? Não tenho a menor ideia, adoraria saber.

Nos EUA, não tem disso. Sexta-feira é um dia como os outros. Quer dizer, pros americanos brancos. No meu bairro no norte de Chicago, bem diversificado, senti uma certa diferença na vida real. Fui lavar roupa na Laundryland, uma lavanderia aqui do lado frequentada por diferentes grupos étnicos, mas com uma presença majoritária de mexicanos. Na sexta-feira da Paixão, só os americanos lavaram a roupa suja. Foi a primeira vez na (minha) história da Laundryland que não havia um mexicano para contar história.

Gostei de perceber isso tudo — tanto sobre a tradição portuguesa no Brasil quanto o american way of Páscoa. Me senti parte de um grupo, com a minha própria tradição pascoalina, simpática aos amigos mexicanos, e fiz o que pude pra comemorar na sexta. Comprei um bacalhau fresco, temperei com sal e pimenta e coloquei pra assar com cebola já pré-refogada, tomate bem maduro em rodela, batata já cozida, aspargos e ervilhas, regado com bastante azeite. Ficou lá no forno um tempão, coberto, no maior vaporzão. Pra terminar, tirei o alumínio e deixei secar um pouco o peixe, pra dar aquele clima de bacalhau salgado que você compra por uma fortuna no Pão de Açúcar, e coloquei umas fatias de ovo cozido com a gema ainda mole. Foi lindo, mas me faltou o combo-Portugal — vinho verde, do Porto, o bolinho de antes, o pastel de depois. Não se pode ter tudo.

Segundo ponto: tenho a impressão de que a Páscoa, fora do Brasil, ou melhor, do mundo católico, é um feriado subestimado. Ok, é um feriado religioso e faz sentido que não bombe em países da mesma crença. Mas e o que dizer do Natal? É valorizado até na China!

Hoje, no domingo de Páscoa, pra aquecer meu coração, vi uma multidão em frente a uma igreja católica, a do Calvário, a duas quadras de casa. Fiquei felizona. De novo, a noção de comunidade e um pouco de sentimento de casa. (Estudei em uma escola católica que ficava do outro lado da rua da minha casa e, mesmo sem frequentar a igreja, sempre prestei atenção no movimento.) E o mais louco é que isso tudo me fez lembrar uma história, também de Páscoa, mas que não tem nada a ver com bacalhau, Portugal, ou o México:

Eu tinha cinco anos e minha mãe me chamou pra ir até a cozinha ver se o Coelhinho da Páscoa já tinha deixado os meus ovos. Assim que chegamos lá, ela me puxou pra dentro da dispensa e falou “se esconde, ele tá aqui e se te ver, você fica sem nada!” Eu me encolhi e tenho certera, juro!, eu vi o bendito Coelhinho lá. Grande e bípede como um humano, branco, dentuço, deixando meus ovinhos. Até hoje tenho a lembrança, e é uma das que eu mais gosto.

Feliz Páscoa!

Como não tenho foto do Coelhão bípede, vai o meu bacalhau da Sexta-feira da Paixão

Esta entrada foi publicada em abril 8, 2012 às 8:02 pm e está arquivada sob Chicago, Comida, Vida na América. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

6 opiniões sobre “Pascoal

  1. Enquanto lia o seu texto me veio à mente uma série de temas para comentar que renderiam grandes debates, o que não caberia aqui. Sendo assim, sugiro apenas que vc compartilhe a receita do seu bacalhau. Parece ótimo!🙂

    • Oi Germano! A receita tá ali no texto mesmo. É só colocar em uma assadeira o bacalhau com sal e pimenta. Daí, por cima, vc coloca todo o resto: umas batatas em fatias já cozida, umas cebolas em fatias finas e tomates bem maduros já refogados, aspargos crus, ervilhas congeladas e bastante azeite. põe pra assar com papel alumínio e, quando o peixe estiver bom (uns 40 minutos, mais ou menos), você finaliza com o ovo cozido. Voilà!

      • Ok. Sou muito cartesiano (pra não dizer inseguro) com receitas, daí pedir detalhes. Depois te dou um retorno do meu Bacalhau português a la Is a Belle Époque! tks

  2. Melhor notícia da semana: alguém que se lembra de ter visto o Coelhão. Então há esperança para as fantasias da Aurora! Vivo me perguntando pra que servem essas coisas de Coelho da Páscoa e Papai Noel — porque eu gostava mesmo, nessas duas épocas, era de procurar ovos, rasgar os papéis de presente, enfeitar árvore. Usava muito pouco da imaginação pros mascotes respectivos. Adorei a imagem do seu coelho, juro que VI um passando aqui do lado do computador…

    • bia, mesmo que a aurora tb prefira procurar os ovos e rasgar os papeis, eu acho que se esses presentes chegarem com um entregador temático como o coelhão ou o papai noel, ficam bem mais loucos e misteriosos. e tenho certeza que a certa altura os pais se divertem tanto quanto os filhos. comentei com a minha mãe sobre essa lembrança e ela quase morre de rir. sei lá, acho que com a infância dos filhos, vez ou outra, os pais ficam crianças também. eu não vejo a hora!
      beijos pra vc e pra aurora.❤

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