Vida de frila ou o que é o que

Se você sempre trabalhou em um emprego formal, com hora pra entrar e sair da firma, alegria de sexta-feira e depressão de domingo, não pode ter ideia da loucura que é a vida de freelancer. Eu, pelo menos, não tinha.

A primeira coisa que explode é o senso de tempo. A começar pelo calendário. Os dias da semana são todos iguais e a hora de lazer é você quem escolhe baseado na sua própria agenda. Trabalhar feito um camelo no domingo e tirar a segunda pra fazer depilação e unhas vira coisa comum — mas nunca regra, que fique claro, que vida de frila não tem disso não. O relógio também perde um pouco o sentido porque, se você tiver um prazo apertado, vai esquecer que madrugada é madrugada, a parte do dia em que a gente dorme, e manhã é manhã, hora de acordar.

O espaço também muda. Frila que é frila trabalha por aí, fora de uma firma propriamente dita. Aluga uma mesa numa sala com outras pessoas, vai pra um café, à biblioteca. Mas o mais comum, e principalmente se você está atolado de trabalho, é que trabalhe em casa mesmo. E aí o espaço fica bagunçado porque você tá no seu habitat natural, lugar de dormir, de ficar de bobeira, de ver TV. O frila, se duvidar, precisa ainda de mais concentração que o funcionário por causa disso. Imagina: você tem que trabalhar, tão esperando que você mande o negócio – o texto, o projeto, a prova corrigida -, mas você tá do lado da TV, tem aquela revista que você comprou e ainda nem folheou, tem o cônjuge folgadão dormindo no cômodo ao lado, um mundo de maravilhas e dispersões para te atrapalhar.

Agora também tem o outro lado: quando o frila vira workaholic. O senso de tempo e espaço explodem do mesmo jeito levando junto qualquer resquício de tranquilidade e vida pessoal existente. Os domingos viram dias de trabalho intenso assim como as segundas, terças, quartas, quintas, sextas e sábados, e as manhãs tardes e noites. Bem, bem triste. O frila workaholic vira o louco do celular, e passa a checar o email quando está no bar com os amigos, no meio do cinema e até quando acorda no meio da noite para ir ao banheiro. Quando trabalha, à frente do computador, esquece de comer e bebe café como se fosse água. Ou, pior ainda, come de frente pra tela. Ou pior ainda, acorda e vai dar uma checadinha rápida no email antes de escovar os dentes e nunca mais se levanta. Passa o dia de pijama – trabalhando.

Peraí, você tá se reconhecendo? Eu também. E agora? O que a gente faz?

A minha dúvida é que se os dispositivos móveis estão tão avançados hoje em dia, porque não te informam quando é hora de parar? Por que não te dão logo uma mão total e se desligam sozinhos? O frila, infelizmente, não pode se dar ao luxo de fazer uma rehab, se dar férias, porque há contas a serem pagas, certo? Mas tem que dar um jeito de desacelerar e conseguir separar as coisas.

Vamos pensar num jeito. Pensa daí, que eu penso de cá e depois te conto.

O clássico frila workaholic

O clássico frila workaholic - quer dizer, clássico não que frila que se preza não usa gravata!

Esta entrada foi publicada em março 13, 2012 às 4:24 pm e está arquivada sob Ai esse comportamento!, Neurose. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

5 opiniões sobre “Vida de frila ou o que é o que

  1. Já fui frila, hoje sou CLT, mas o fato é que metade do que você descreve ainda faz parte da minha vida – num mundo em que as condições trabalhistas se precarizam a cada dia, o “devir-frila” começa a fazer parte de todo e qualquer trabalho (em que há cada vez mais pressão para se estar acessível o tempo todo, em que nosso trabalho cognitivo para preparar o trabalho – aulas, no caso – não é levado em conta etc). O mundo tá freud…

  2. O ideal do frila é saber quando aceitar ou não um trabalho. Ao precificar o trabalho, leve em conta o tempo gasto. Comecei a fazer isso e anda funcionando. Se preciso entregar um trabalho grande em uma semana, vou precisar trabalhar com certa exclusividade e a hora/trabalho é mais cara. Se preciso entregar num prazo maior, posso fazer aos poucos, e a hora/trabalho um pouco menor. O tempo é precioso para todo mundo: para quem compra e para quem executa.

  3. Cristina Izabel em disse:

    Adorei a foto, sem falar que o texto ficou super verdadeiro. Muito legal Belle.
    Beijos

  4. Eu antes achava que ficava louca com a vida de frila, mas eu era tolinha. Eu tinha empregada (babá, cozinheira, contra-regra da minha vida) e horários mais ou menos definidos. Agora, eu estudo esloveno, não tenho empregada como no Brasil (só baby-sitter), tenho de escrever em inglês e nenhuma definição de horários. Tem dias que quase surto, tem dias que largo tudo e vou tomar um café cazamigas ou pego um cineminha no meio da tarde (com o celular desligado – e o f***-** ligado). Porque esta é a melhor parte da vida de frila, diga-se de passagem.
    Vem, vem, vem surtar/ frilar com a gente!

  5. Nossa, me vi no seu texto…. Trabalhei por 12 longos anos, saindo de uma empresa e indo para a outra, na verdade foram 3 empresas apenas nesse tempo e apesar do mais corrido que fosse e por mais horas extras que eu fizesse, eu me desligava total a hora que saída a firma. Sendo frila mesmo enquanto vc não trabalha vc pensa no trabalho, afinal vc é a empresa toda e a empresa é sua! não tem como se desligar, mas confesso que precisamos sim nos colocar limites… é difícil no começo mas tem que rolar. Este é o meu primeiro ano de freela e no começo era um saco pq tinha poucos clientes e agara estou chegando num momento que preciso começar a escolher melhor pensando um pouco em mim… Vi algumas dicas outro dia do tipo, tenha um espaço de trabalho isolado, se vista até com sapatos para trabalhar mesmo em casa e principalmente imponha horário e durante esse horário não se disperse e faça o seu tempo render. estou seguindo algumas regras e está bem melhor… devo confessar que se vestir ao invés de ficar de pijama é bem diferente, apesar de não ter encarado os sapatos ainda…rs

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