A bolha involuntária do casamento imigrante

Tenho pensado muito sobre o casamento. A vida a dois, a história que se constrói com alguém que se escolhe, os momentos que vão ser divididos com essa pessoa, coisa e tal. Casamento não é brinquedo. E principalmente quando se atinge um nível alto de intimidade. Quando eu fui morar com meu então namorado há quatro anos, achei que estava perto de atingir o pico dessa intimidade.

Tolinha.

Casar no papel e imediatamente depois morar num lugar onde só se conhece o marido, aí sim estamos falando. É algo muito, mas muito louco. Em todos os sentidos. Da loucura mesmo, porque quem resolve fazer isso talvez precise ser internado em um hospício, e porque é totalmente surreal: a ideia de viver para o outro atinge níveis nunca antes imaginados, mares nunca dantes navegados.

Isso, claro, pode virar uma armadilha. Porque ao mesmo tempo que você vai relacionar o outro à felicidade, você pode relacionar também a todas as suas frustrações. Melhor que viver para o outro é viver para você e com o outro. Apesar de ser difícil saber como fazer assim e não assado, não é impossível. Cada um precisa ter uma agenda independente que traga o mínimo de satisfação.

Mas, peraí, não é nada disso que eu quero falar sobre viver em um pseudo isolamento com o recém-conjuge. É sobre o que se aprende e o que se descobre. Os casais demoram anos e anos para construir familiaridade, se conhecer, entender um ao outro. Quem vai morar no Polo Norte, nas Ilhas Maurício ou em Piripiri com a outra-metade se matricula num intensivão. Pro bem, e pro mal.

No meu caso, as coisas mudaram, mesmo e já tendo quatro anos de experiência sob o mesmo teto com meu marido. A gente ficou  mais próximo, mais companheiro, dividimos mais as coisas. Dividimos até demais pro meu gosto – meu marido já até tirou esmalte de um dedo pra eu não borrar o outro e já se ofereceu pra puxar a cêra de depilação do meu bigode, o que, pra mim, seria o começo do fim. Mas é bom ir pra cama todas as noites com a certeza de que não é só você que está amadurecendo, mas o seu relacionamento também.

Essa experiência é uma espécie de bolha. Sabe o casal que se conhece, se apaixona e os amigos reclamam que eles passam a viver na bolha? É isso, mas com a simpatia popular, com a saudade dos amigos em vez da raiva. O lado ruim é que você não tem muito como furar essa bolha. E, enquanto estiver nele, melhor dar um jeito de curtir. O que acontece é que ela vai murchando com o tempo, a medida que você vai fazendo novos amigos e se ocupando com coisas da sua vida. Mas aí, claro, as coisas só melhoram.

A minha bolha eu montei com móveis da Ikea

A minha bolha eu montei com móveis da Ikea

Esta entrada foi publicada em março 6, 2012 às 9:32 am e está arquivada sob Ai esse comportamento!, Neurose, Romance. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

4 opiniões sobre “A bolha involuntária do casamento imigrante

  1. As crises são intensas, mas o resultado (quando se sobrevive, claro) é sublime.
    Pra compartilhar de uma experiência: Arnaldo cortava minha franja e fazia mechas vermelhas no meu cabelo : D.
    bjs querida!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: