Ele, meu novo velho amor

Quem diria que isso aconteceria de novo. Eu, apaixonada. Por ele. De novo, depois de tanto tempo. O jornalismo.

Ai, ai.

Há bem pouco, eu contei aqui, me sentia uma virgem de novo tentando ser repórter em inglês, depois de anos escondida na redação. Eu não estou exatamente mostrando minha cara para o mundo agora, mas posso dizer que estou tendo muita satisfação. Mais que isso, é o começo de uma relação amorosa.

Quando vou entrevistar alguém que realmente importa pra mim, sinto enjôo. É uma coisa física mesmo, o estômago embrulha, as mãos gelam. A ansiedade virou praxe. Mas, quando rola, quando a conversa começa, ai como é bom! Se o entrevistado ajuda, fala bem, vou entrando no clima, esqueço que estou trabalhando, me interesso, pergunto coisas que fazem sentido e eu sei que é o que qualquer um quer saber, fico até mais inteligente. É como quando o paquera tá caindo na sua, namoro novo.

Acho que devia ser lei, no jornalismo, que as pessoas mudassem de função o tempo todo. Ficar na redação, melhorar o texto dos outros, aprender sobre fechamento e edição, pensar o trabalho jornalístico como um todo, com todos os elementos que o formam e não o texto apenas, é muito interessante e importante para todos. E ser repórter, principalmente quando se escolhe o que se vai fazer, sobre quem vai escrever, ou se você dá sorte e pega pautas boas, fatos que entrarão para a história, gente que importa, aí é tipo ser o MacGyver. E, melhor, você não precisa parar um vazamento de urânio com chiclete e cotonete.

É muito irônico que isso esteja acontecendo agora. Em agosto do ano passado, quando pedi demissão do meu cargo de subeditora de empresas em um jornal de economia, eu esperava que, ao mudar de país e rotina, eu descobrisse uma nova profissão. Estava cansada de ser jornalista, desacreditada no que estava sendo publicado por todos, até meio cáustica. Hoje eu vejo que, no final as contas, eu estava muito, mas muito cansada. (E entediada.)

O tempo passou e eu não descobri nada mais que pudesse fazer. Mas, na real, talvez eu tenha sido muito mais sortuda. Eu redescobri o amor.

Acho que meu trabalho até melhor que o do MacGyver, porque eu não tenho que salvar o mundo, nem que segurar míssil.

Acho que meu trabalho até melhor que o do MacGyver, porque eu não tenho que salvar o mundo, nem que segurar míssil.

PS: E eu acredito que isso deve acontecer com todo mundo que está cansado e tem a chance de parar um pouco até ficar com saudades. Não tô falando de férias, obviamente. E estou falando de todas as profissões.

Esta entrada foi publicada em março 5, 2012 às 4:13 pm e está arquivada sob Ai esse comportamento!, Jornalismo, Neurose. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

4 opiniões sobre “Ele, meu novo velho amor

  1. Belíssimo depoimento. Uma das coisas que me motivou a pedir as contas do jornal e dar um respiro de redação foi resgatar um pouco esse tesão pelo jornalismo. Uma das coisas que passaram a me incomodar muito mais depois que virei chefe é ver como chefe adota posturar idiotas porque são prerrogativas de chefe, e como os chefes criam mitos imbecis apenas porque são chefes. “Não pode foto grande”. Mas por que não pode? “Não pode isso ou aquilo no título”. “Não pode colocar foto de preto e pobre no jornal”. “Ah, isso aqui o fulano não gosta”. “Não entrevista esse cara nem pensar, é desafeto do chefe”. E por aí vai. Aí é incrível ver uma edição do Última Hora dos anos 50 e ver que os caras faziam um jornalismo muito mais moderno graficamente, pluralista e instigante que os jornais fazem hoje, enquanto tentam tapar o sol da internet com a peneira.
    Como o Fernando Moraes disse em uma entrevista que fiz com ele há uns bons anos, “tem um monte de histórias ótimas que estão esperando alguém pra ser contadas, é só ir atrás”

    • É isso aí, Arnaldo! Antes de achar que algo vai ser “impossível de fazer” eu tô querendo tentar tudo. Já pensou se consigo algo impossível? Aí sim eu vou ser o MacGyver!🙂
      Acho que a gente descobriu o segredo. Tem que dar um tempo. E aí é só curtir o começo de namoro com a profissão de novo.

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