De como eu me apaixonei por um som

Eu devia ter uns dez anos. Tinha começado a estudar piano cinco anos antes e, àquela altura, música andava de mãos dadas com comida no topo da lista das coisas que eu mais amava no mundo. (No fundo, isso não mudou até hoje.)

Meus pais tinham um aparelho de som incrível em casa, com vários módulos Sansui comprados em Manaus. E logo que foi lançado o CD, aquele disquinho mágico que era muito mais fácil de manipular do que um LP, minha mãe tratou de comprar um aparelho para completar o jogo de som. Mas o disco em si ainda era caro e nós tínhamos uns três em casa: uma coletânea de bossa nova, um Best of Sade e Extreme II: Pornograffitti.

Pra me salvar, abriu uma locadora de fitas VHS e CDs do lado da minha escola, ao que todos os dias depois da aula eu alugava algo diferente. E quando eu digo diferente, digo diferente mesmo. Queen, Belchior, Beatles, Mastruz com Leite, Bach. A cada dia, uma nova aventura.

Até que aconteceu. Eu ouvi o som mais envolvente da minha vida até então.

Dentro da caixa de algum dos CDs que aluguei, por engano, veio mais de um disco. O que não deveria estar lá não tinha rótulo, mas tinha uma música que era assim, como eu posso dizer… o Céu. O som mais bonito e bem coordenado que eu já tinha ouvido na vida. Pra mim, parecia uma orquestra, eu não sabia dizer direito o que era. Era uma trilha pra filme de amor. Mas podia ser também para uma fuga de um filme de aventura que certamente eu queria ser a protagonista. Ou ainda algo de descoberta. Ou trilha para aquele momento em que os filmes querem mostrar um trabalho rolando bem, um mutirão, gente se ajudando, etc. Podia ser qualquer coisa. E, na real, era tudo.

Ainda é tudo. Levou anos até que eu descobrisse, mas hoje, exatamente hoje, eu vi que tem o nome mais apropriado do mundo. Não é um concerto, não é um quinteto, nada assim. É um divertimento, mais especificamente o K136 de Mozart. E foi esse som maravilhoso, que carregava um pouco de tudo, que me fez cair de quatro de amores pelo violino.

Mas essa é outra história.

* * *

Aqui tem uma interpretação meio nervosa da coisa. É bem viva, mas o vídeo é ruim e tem muita tosse e ruído.

Nesse outro, fica uma coisa mais celestial e mais lenta. Acho que é a acústica da igreja. Ou os músicos entraram no clima gospel, sei lá.

Essa, a meu ver, vai no ponto

Esta entrada foi publicada em fevereiro 7, 2012 às 11:27 pm e está arquivada sob Música. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

4 opiniões sobre “De como eu me apaixonei por um som

  1. Curti demais!!
    Tem tocado violino aí?
    Beijos

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