A internet e o novo romance

Eu sempre neguei com veemência a versão de que conheci meu marido online. Ele sim me conheceu online; eu o conheci num restaurante. O motivo desse empenho é a ideia de que arranjar namorado pela internet é coisa de nerd ou de quem não tem habilidade social e acaba apelando – e porque eu sempre achei bizarrão. No Brasil, onde é normal ficar na balada com alguém que você nunca viu na vida, pra que internet?

Nos últimos anos, no entanto, a coisa têm mudado um pouco de figura. Muitos dos meus amigos têm usado redes sociais pra se aproximar de alguém interessante. Em alguns casos, descobrem pessoas novas, mas, geralmente, é um meio de chegar a alguém que já é conhecido. Há até uma espécie de código de conduta, uma amiga me contou outro dia. Mais que cutucar, no Facebook, curtir uma foto não muito badalada, perdida em um álbum qualquer, é muito mais eficaz para uma eventual aproximação ou mostra de interesse.

Se a internet para fins românticos está crescendo no Brasil, no contexto americano tem base sólida. E faz até mais sentido. Estamos falando de um país onde as pessoas não têm o hábito de se tocar, todos os códigos de relacionamento, seja amizade ou envolvimento romântico, são pouco claros e o ritmo de qualquer evolução amorosa, mais lento.

Aqui, pela minha observação e pelo que ouvi de amigos, o grande lance é entrar em sites especificamente de relacionamento. Os comerciais desse tipo de serviço inundam o horário nobre da TV americana e há todo tipo de especialização: os voltados para gente com mais de 50, os para pais solteiros, os para gente que quer namorar mas jamais casar, e até um serviço para quem quer encontrar um par também no cristianismo. Alguns desses sites oferecem aconselhamento, ideias para encontros e até teste de personalidade.

Ao pesquisar sobre os sites, fui achando cada vez mais maluco. Até conversar com alguns amigos e descobrir que TODOS os que são solteiros usam. Bizarrão é quem não tem namorado e não está no Match.com, no eHarmony ou nos seus similares. Outro dia, foi o assunto principal em um jantar na casa de um amigo, que pedia sugestões sobre o seu perfil no Ok Cupid. A foto estava certa? E a descrição da personalidade? No meio da noite, ele recebeu uma mensagem de alguém que havia lido seu perfil. Tentou disfarçar, mas ficou felizão, com um ar de eficácia.

Me perguntei: será mais fácil online mesmo? O que muda? Você tem que falar mais, isso é certo. Depois que você passa do estágio do oi-tudo-bem-você-gosta-de-que da internet e vai para um encontro presencial, por assim dizer, as dificuldades serão as mesmas?

E comecei a pensar ainda mais sobre o assunto. Fiquei com a sensação de que cada vez entendo menos das coisas e que a careta aqui sou eu.  Eles não são os nerds, eu que sou a ultrapassada. Afinal, o mundo mudou e a internet também. Rapidíssimo, aliás. É o não-lugar mais badalado do mundo hoje em dia, e o papel que ocupa na sociedade  – em grupos sociais como o meu – é totalmente diferente do que o que tinha em 2005, quando eu vi meu marido pela primeira vez em um restaurante.

Sim, eu vi meu marido pela primeira vez em um restaurante.

Eu aqui falando em "novo romance", mas em 1998 a Meg Ryan já curtia fotos perdidas no meio dos álbuns do Tom Hanks

Esta entrada foi publicada em janeiro 16, 2012 às 12:19 am e está arquivada sob Estados Unidos, Neurose, Romance, Vida na América. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

7 opiniões sobre “A internet e o novo romance

  1. Vou contar da minha experiência, tá? Como eu estava bem de saco cheio dos meninos da vida real (a vida real nesse quesito tem sido bem ingrata pro meu lado) decidi experimentar um site de relacionamento pra ver qual é. Escolhi o eharmony, porque era o mais caro que eu conhecia – o raciocínio simplista foi de que lá, por ser mais caro, ia ter gente de um melhor nível financeiro (sim, isso para mim é importante, pq eu já paguei a cadeira de sair com homem que ganha menos do que eu e simplesmente não rolou; aliás, rolou estresse).
    Fiquei três dias cadastrada no site. No primeiro com foto. Aliás, duas. a minha impressão é de que eles não entenderam nada do que eu respondi nem do que seria importante para mim numa relação, porque as opções que me escolheram foram sofríveis.
    No primeiro momento, a gente não pode ver o povo, então a pessoa acaba se cadastrando por curiosidade também, porque algumas descrições são bem interessantes. No meu caso, ficou por aí. Depois que vi as fotos dos meus pretendentes, excluí as minhas, porque eu comecei a achar que estava pagando um king kong estando cadastrada lá. Ainda assim, resolvi dar mais um dia de chance, porque estava mais ou menos engatada numa conversa com um carinha que eu achei até interessante. Mas depois que resolvi ler o perfil dele (não, eu não tinha lido direitinho antes, minha culpa, minha tão grande culpa), e vi erros de português imperdoáveis, decidi pedir o reembolso do valor pago e a exclusão da minha conta naquele negócio.
    Em minha defesa, uma grande amiga arrumou um namorado muito legal (eles estão juntos há mais de um ano) no parperfeito.com.br e eu pensei “se deu certo com ela pode dar comigo também”. Mas não deu. Na minha opinião, a coisa tá preta nos dois mundos, viu? Pessoal e virtualmente, está cada vez mais difícil começar uma relação. Mas isso é comigo.

    • Amanda, que loucura! E eu sei como erro de português pode desanimar, viu? Dá uma dor no coração… Que droga que não rolou. Mas, olha, dizem que quando você menos espera acontece, né?😉

  2. “Ver” não é “conhecer”. Aceite.

  3. Oi Isabellissima! Eu vejo a mesma coisa aqui em DC, e minhas roomates estao sempre insistindo para eu me cadastrar. Ainda nao me convenceram nao, apesar de eu concordar com a Amanda – a coisa ta feia. Bom, mas tantos amigos insistem que no ano passado eu acabei escrevendo uma materia sobre esses sites. Saiu despedacada na FOL, mas de repente vc acha algo interessante – http://www1.folha.uol.com.br/mundo/938667-sites-de-namoro-on-line-se-proliferam-nos-eua-e-buscam-nichos.shtml
    E tem essa outra aqui, que foi o que originou a pauta – http://www1.folha.uol.com.br/mundo/938664-nos-eua-debate-sobre-relacoes-via-internet-causa-polemica.shtml
    eh meio chocante…
    beijos gelados!

    • podes crer, andrea! é bem chocante. mas é essa a história, quem tá fora de órbita sou eu, porque é normal pra todo mundo ao meu redor. e, mesmo picotada, tá boa sua matéria, hein? não tinha ideia que as mulheres só ficavam esperando os pretendentes, por exemplo…
      bisous!

  4. eu bem sei que ver não é conhecer, nem precisaria aceitar isso. mas tinha a ilusão mesmo; não vou mentir, pra morrer preta. paciência, né? ao menos me devolveram o dinheiro😉

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