Como proceder em caso de vida normal

Não sei se é algo que acontece a todo mundo, mas eu queria fazer algo realmente grande da vida. Chegar a uma idade, olhar pra trás, e ver uma obra. Ser reconhecida pelas pessoas, quem sabe, até ganhar um prêmio. Uma vida a serviço. Vamo combinar, muita vaidade, né? E se você alimenta isso, como não se frustrar quando chegar à conclusão de que não vai ser bem assim? Como proceder?

Quando eu estava no último ano da faculdade, sonhava em ser correspondente de guerra. Diz se não é a coisa mais desbaratada, uma (ainda que não quisesse admitir) Patricinha do Nordeste do Brasil querer cobrir a guerra do Afeganistão. Pois é. Mas o que eu perseguia era a ideia do “algo grande”. Falar pra muita gente. Ver o que acontece no mundo. Fazer parte do que acontece no mundo.

De lá pra cá, passou pouco mais de uma década. Mas a Patricinha parece outra vida e o Afeganistão, idem. Para a Patricinha, não ir à guerra – ou não fazer nada grande, uma grande cobertura política, ser âncora de um jornal, ou qualquer coisa assim – seria o maior dos fracassos, atestado de loser. Mas só tem essas duas opções, loser e winner? Graças ao bom Deus não! Se você entra nessa lógica totalmente paranóica, o bicho pode pegar.

Se a gente parar pra pensar, a vida não é feita só de Einsteins. Se fosse, como ele viveria? Digo, ele ia ter que comer, certo? E quando ficasse doente, teria que ir à farmácia e alguém teria de atendê-lo. E se não tivesse ninguém lá? Se só tivesse, além do Einstein, o Martin Luther King e o Graham Bell? Sem remedinho pra você, queridinho! Pode morrer com essa sua tosse aí.

A ideia não é conformismo, mas saber o peso e a importância de cada coisa. Eu acredito muito nisso, por mais que vez ou outra tenha que me lembrar de que o Einstein precisava do balconista da farmácia.

Dr. Einstein bem que poderia ter usado uma hidratação nesse cabelo; além do balconista, um cabeleireiro ia bem, hein?

PS: Na real acho que a minha dúvida é saber se todo mundo tem esses devaneios megalomaníacos na juventude, e como eles se acomodam, no que se transformam. Frustração? Ou algo mais doce tipo nostalgia?

 

Esta entrada foi publicada em janeiro 12, 2012 às 4:27 pm e está arquivada sob Neurose. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

12 opiniões sobre “Como proceder em caso de vida normal

  1. Hahahahahaha, eu sou assim tb, zaza. Achava que eu ia ser muito grande em pelo menos um dos (?) meus setores de talento! Será que é um caso de aprender a amar o que se tem? Será que baixar a bola vem com o amadurecimento? Não sei. Vou pensar. Mas relaxa que você não é a balconista da farmácia, vc é a zazadivah. Besos!

  2. Belle, essa eu tive que comentar pq a última pergunta parece que foi feita pra mim! hahaha Eu sempre tive devaneios megalomaníacos, sempre sonhei ser a correspondente de guerra tb (juro!), já tinha td arquitetado na minha cabeça. Durante um tempo me senti mt frustrada, mas esse sentimento só passou quando decidi tomar as rédeas da minha vida e passar 1 ano na Europa, estudando, passeando, me divertindo. Foi meu ano sabático. Voltei outra pessoa, sem sonhos megalomaníacos e mais feliz com o que a vida pode me dar (sem me subestimar nunca, mas sem devaneios). Hoje meu lema é aquela música dos Los Hermanos: “Eu que já não quero mais ser um vencedor/ Levo a vida devagar pra não faltar amor”. bjs.

  3. Eduardo Prado em disse:

    Apresento meu TCC semana que vem e parece que você escreveu o post pra mim. Gostei muito da anedota do Einstein, apresenta uma perspectiva que alivia bastante a megalomania.

    A propósito, parabéns pelo blog.

  4. Eu nunca pensei que ser correspondente internacional fosse algo megalomaniaco, no meu caso. Pra mim, era apenas um sonho a ser realizado. E esse desejo vinha até mesmo antes de entrar no curso de jornalismo. Ao passar dos anos, dei-me conta que o que me corroia por dentro não era o fato de me tornar um correspondente internacional em si, mas um espirito aventureiro e inquieto que faz parte de mim. Hoje, acredito que me sinto tão bem comigo mesmo porque consegui, de alguma forma, saciar esse lado do meu “eu”. Claro, não como correspondente internacional, pois se continuasse a insistir por esse lado a frustração seria inevitavel. Mas tendo a coragem de viajar sem receio, a encarar o mundo.
    Belle, eu sei que frustrações vão sempre existir em nossas vidas. Mas também aprendi que existem outras maneiras de realizar velhos sonhos e, pra isso, muitas vezes nada complicadas ou megalomaniacas.

    • cidão, mas a megalomania não era em ser correspondente. era de informar a um país inteiro, antes de a internet ser o que é hoje, algo de relevante que acontece em um país remoto. é a fantasia do repórter dos anos 60, saca?
      e acho que o seu plano é o melhor de todos! viva mauritius!!

  5. Cristina Izabel em disse:

    Não sei qual dos dois gostei mais…o Juventude ou este, Como proceder em caso de vida normal.
    Todos nós passamos por isto quando jovens e sonhadores… Com o passar do tempo vemos que para ser felizes não necessáriamente precisamos ser tão grandes nem pequeninos. Somente normais.

  6. Arnaldo em disse:

    Assino embaixo Belle. Hoje em dia, quero só a minha parte em dinheiro e felicidade. Nada mais. E pra matar as saudades daquela megalomania universitária, voltei a tocar punk rock com os amigos da faculdade🙂

  7. Lu Coelho em disse:

    Eu nunca quis ser correspondente internacional (ao menos até entrar no jornal). Juro! Eu queria ser escritora. E eu só queria fazer fosse o que eu fosse que eu fizesse direito, a ponto de ter alguma satisfação e algum respeito de quem trabalhasse comigo. E é o que eu ainda quero (mesmo sendo correspondente, rá!).
    Verdade que eu admiro alguns dos meus amigos que foram cobrir guerra. Mas não porque eles foram lá, ou não só por isso, ao menos. Também conheço gente que cobriu guerra e não merece um pingo de admiração. No fundo, eu acho que admiro as pessoas quando elas são inteligentes, escrevem (ou fazem o que quer que fizerem) bem, têm assunto, seja onde for. Quando elas conseguem por um pouco de graça em tudo que fazem, mesmo que passe despercebido pela maioria. E, na boa? Admiro muita gente que eu conheço. Admiro vc por esse blog e pela empreitada em Chicago, por exemplo. Acho que a Patricinha do Nordeste não tinha imaginado essa possibilidade. Porque no fim não somos gênios, somos pessoas normais tendo uma vida normal talvez um pouco fora do estritamente convencional. Aí, acho eu, que está a graça.
    Ok, talvez a megalomaníaca seja eu, que acho que só tenho amigos brilhantes.

  8. Até de longe vc se faz imprescindível na minha vida, como pode? Esse seu post caiu como um antiácido poderoso na gastura da minha paranóia… Não sabia se estava disfarçando a minha frustração ou aceitando meu conformismo. Só sabia que tudo o que eu tinha “megalomaniacamente” pensado para mim não vai, de fato, acontecer. Não daquela forma… E aí, de bobeira contando as horas para o fim deste dia e começo das minhas férias, resolvo entrar no seu blog. E ler posts antigos, que eu tinha deixado passar. Pronto, alívio. Agora vou peruar em Miami e fazer o enxoval do meu bebê feliz da vida com a futilidade disso tudo. Afinal, se posso pagar por isso é porque pelo menos um fracasso eu não virei, né? Tiamu, belle!❤

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