Da preparação para o inverno

Preparar-se para o inverno significa muita, muita coisa. Quem vem de país tropical não tem ideia do que é preciso fazer antes do bicho pegar. A lista de afazeres começa dentro do cérebro – é importante que a psiquê saiba o que vai acontecer para que possa se preparar e não te deixe na mão. Eu sugiro até que, pra ela, você faça um drama maior do que o que dizem os meteorologistas porque 1. eles costumam errar, 2. fenômenos da natureza como la niña sempre podem aparecer.

Convencida a mente de que o inverno vai chegar, vai ser duro, você vai sofrer, vai ser difícil, vai ser longo, vai ser um período de vida interior e desenvolvimento do self, é hora da parte prática. E isso também significa muita coisa. Pra começar, o casaco. Se você vai enfrentar um inverno daqueles que apenas os europeus do norte, os canadenses e alguns americanos conhecem (além dos esquimos e de toda a turma da neve acima da canela, é claro), na hora de efetuar essa compra, saiba que não está adquirindo apenas uma peça de indumentária, mas um lar! Você vai totalmente morar dentro dele.

Vai precisar ainda de luvas, headphones peludos (protetores de orelha), meias de lã, ceroulas, chapéu ou gorro, cachecol. E não vale algodão ou acrílico não, viu? Imagina, então, comprar isso tudo de uma vez, e de cashemere!

Isso sem falar na bota. O sapato de inverno, assim como o casaco, é um capítulo todo especial porque tem:

– a bota de chuva

– a bota de neve

– a bota quentinha, mas que não é impermeável

– a bota bonita (sim, porque todas as outras são horripilantes)

A Bota – assim mesmo com caixa alta -, na real, pode ser o mais difícil. É impossível encontrar, em um mesmo objeto, conforto, calor, beleza e preço. Então, fatalmente, o novato invernal vai comprar três tipos para uma única temporada e, provavelmente, não será feliz com nenhum deles.

Um passeio por qualquer sapataria de cidade onde há inverno nesta época do ano vai mostrar as tendências em questão. As australianas UGGs, que pareciam esquisitas de começo, são lindas em comparação com o que vem por aí. Alguém já ouviu falar em Moon Boots? Uma vendedora tentou me empurrar ontem, dizendo que era a coisa mais perfeita pra andar na neve, que são levíssimas. Olha a carinha dela, eu não me arrisco.

A tétrica e - dizem - genial Moon Boot

Finda essa estapa de compras da armadura antigelo, há a manutenção. A pele racha, a boca fere. É preciso comprar comida, como sair quando está abaixo de zero? Como ir à lavanderia, como esperar no ponto do ônibus? E a coragem?

O frio implica muita coisa. Eu não tenho as respostas ainda. E tenho medo. Mas tenho uma cachacinha em casa também que, se o negócio apertar, eu viro de uma vez só.

A verdade é que às vezes tenho um feeling de que há bastante terrorismo envolvido em tudo isso. Eu não acho que estejam mentindo e preparei o meu self para o pior dos mundos, mas sinto que há um prazer imenso entre os chicagoanos ao falar do inverno para um forasteiro como eu. Talvez eles acham que a pior expectativa pode dar uma amenizada na hora que o termômetro despencar, não sei. Alguns dizem que a vida fica terrível e deixam o olhar perdido no infinito, como se não houvesse saída, estamos todos indo rumo à morte, ao moedor de carne, ao buraco negro. Outros, mais otimistas, falam: “é realmente muito duro esse inverno daqui, quando começa, parece que não tem fim, mas use camadas, vai dar tudo certo”.

Em suma, acho que o negócio é ruim mesmo, e a população não consegue se controlar e fica debatendo sobre como realmente é pavoroso. Se isso traz alguma vantagem, resolve alguma coisa, eu não sei. Mas hoje eu li que os estúdios de cinema saíram daqui no começo do século passado por conta do clima. Acho que o povo da prefeitura bem que podia contratar São Pedro, nem que fosse no esquema de prestador de serviço, pra dar uma mãozinha, viu?

Esta entrada foi publicada em novembro 29, 2011 às 5:47 pm e está arquivada sob Chicago, Neurose, Vida na América. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

3 opiniões sobre “Da preparação para o inverno

  1. Isso de ser tropical num país frio é dureza mesmo. Uma vez, comprei um sobretudo que parece um edredom (creme), de tanto frio que estava sentindo. Depois, cadê coragem de usar aquela coisa horrenda em outras ocasiões? Gastei uma grana para usar pouquíssimas vezes, mas valia tudo para não congelar. E hoje, vendo a sua (hihihi) moon boot, achei que ornava com meu sobre-edredom.
    Beijos

  2. bobbie em disse:

    Belle, acho que é o calçado mais feio que já vi na vida! me-da!

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