Webinveja

Deixar sua cidade para morar em outro lugar é totalmente diferente hoje, em 2011, do que era há 20 anos. Em 1991, não havia internet. Isso significa dizer que se você deixou o país, você deixou mesmo. Para manter contato com família e amigos que ficaram no seu antigo CEP, as cartas levavam dias e os telefonemas custavam uma fortuna. Eu lembro de, em 1996, quando deixei Fortaleza para morar no estado de Washington, nos EUA, ter gastado mais de US$ 800 na conta de um telefone fixo em um mês apenas, em ligações interurbanas e internacionais. Hoje, isso é impensável, viva a internet!

A internet faz com que aquele que parte consiga manter contato direto com os amigos que ficam. Você pode ligar a qualquer minuto pelo Skype e até tomar um vinho ou uma cerveja com um amigo do outro lado do mundo, vendo cada reação facial às piadas que você eventualmente conta. E você nem precisa estar em casa. Se não consegue lembrar a cor favorita da sua irmã, pode ligar para a sua mãe do Viber, no telefone. É prático e de graça.

(Paciência, leitor. Essas constatações parecem vindas de uma centenária que descobriu agora o poder do www, mas o objetivo será mostrado em breve.)

A maravilha da internet para encurtar distâncias – e só morando fora para entender esse slogan cafona de propaganda de provedor de banda larga! – é que você pode até viver a vida do seu lugar original, sabendo de tudo o que se passa com seus amigos, se sentindo próximo e acolhido.

PEEEEEEENNN!!! NOOOOTTTT!!!!!!

É aí que mora o perigo, meus caros! A internet, se você deixar, vira um gênio do mal. Você vai viver numa rede de mentiras, achando que está participando de um contexto que não é mais o seu. E o problema maior é quando você não corre atrás de uma vida no lugar novo, achando que tá tudo muito bem, você não precisa sair com aquela menina simpática e estranha que te chamou pra tomar um café no bairro, afinal você não está só, e vai rolar um Gtalk mais tarde com seus amigos da faculdade.

Chega uma hora que você se liga que a sua turma vai pra uma balada e não vai dar pra eles deixarem o Skype ligado. Você, morrendo de tédio e sem querer admitir a solidão, brinca com seu iPhone, e vê, no Instagram, seus amigos na praia, num clube novo, num restaurante incrível. E você continua sozinho, com o telefone na mão. Começa a sentir uma pontada. Você sabe o que é, mas não quer admitir. Até que reconhece: sim, é inveja. Webinveja.

A vida dos amigos é bem mais legal que a sua – a grama do vizinho é sempre mais verde. E por que tem que ser desse jeito? Por que você tem que tá em casa, sozinho, morrendo de frio, quando tá todo mundo na praia?

Não há um mal que não traga um bem. Mas pode ser que os bens tragam maus também. Se você não se policiar, pode ser acometido por esse. Internet à longa distância, com objetivo apenas e parcimônia. Voyeurismo auto-flagelatório não tá com nada.

Aos meus amigos, aviso: estou no rehab. Espero sair em breve. Daí, a gente marca um Skype!

Esta entrada foi publicada em novembro 14, 2011 às 11:25 am e está arquivada sob Neurose, Vida na América. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

2 opiniões sobre “Webinveja

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