O Meu Programa Favorito

Depois que você muda de endereço, quanto tempo demora para que você se sinta em casa? E quando muda de cidade, de país? O que faz com que se sinta à vontade em um lugar totalmente novo?

Eu mudei muitas e muitas vezes nos últimos dez anos. Mudei de cidade e fui morar num hotel. Levei um monte de porta-retrato pra fazer com que aquele quarto parecesse a minha casa. De lá, fui pro apartamento de uma amiga da minha mãe, que habitei sozinha – e sofrendo – por um mês. Daí, uns três meses depois, tive a primeira o meu primeiro endereço, que dividia com uma amiga muito querida. Depois ela saiu e passei a dividir com um amigo – foi como se tivesse mudado de novo. Depois fui morar com meu namorado, na casa que já era dele. Tive que mexer em tudo, pendurar meus quadros, fazer um guarda-roupa que me comportasse, remobililar, todo esse esforço pra eu sentir que o lugar era meu também. Depois disso tudo, mudei de país.

Ufa!

Daí montei uma casa, todo mundo já sabe o perrengue, e hoje eu tou aqui nesse apêzinho só o mi, mas que é duro de limpar. Na primeira semana, já me sentia em casa. Eu escolhi tudo, arrumei tudo, assim é fácil!

Legal. Mas e a cidade? Os amigos ficaram pra trás, os lugares que conhecia também.

Bem, mas eu acho que não é bem assim, essa cidade agora é minha. Sabe por quê? Porque eu tenho O Meu Programa Favorito. E hoje, na véspera de uma viagem de dez dias ao Canadá, resolvi que o melhor jeito de me despedir de Chicago, minha nova hometown, era executar esse roteiro. O programa é:

Pega o ônibus 36, que segue na Broadway, na direção sul. Desce na altura com a Belmont, no bairro de Lakeview. Daí, anda até o Intelligentsia Coffee. Pede um doce e um café. Come, bebe, faz uma hora. Lê uma revista, brinca com o celular. Dá mais um tempo e sobe, na mesma Broadway até a Goorin Bros, uma loja de chapéu. Entra, experimenta todas as novidades. Conversa com os vendedores. Não compra nada. Agradece, faz uma piada, sai. Anda 20 passos, entra na Unabridged, uma livraria de bairro, dessas com indicações dos vendedores, com boas surpresas, com alguma personalidade. Olha tu-do o que eles têm lá. Lê cada uma das notas de sugestões da equipe. As prateleiras de novidades fição. Se constrange um pouco com a indicação de um Paulo Coelho. Se surpreende com as novidades não-ficção, que inclui um livro feito a partir de uma foto premiada feita em 1960 e algo, em que uma moça negra, muito bem vestida, com livros nos braços, segue reto, altiva, e logo atrás, uma moça branca grita nos ouvidos dela, impedindo que ela entre na escola. Fica curiosa e resolve ler um pouco. Descobre que é uma biografia das duas, que é um pouco da história da segregação dos Estados Unidos. A branca se arrepende mortalmente. E hoje, vejam só, são amigas. Isso elimina um pouco do charme e é melhor deixar o livro pra lá. Dali, para a prateleira dos clássicos, depois as promoções, que tem coisas incríveis, até a literatura por ordem alfabética, onde é possível passar uma vida e só sair para dar uma olhadinha em música. Quando se dá conta, já são duas horas de prateleiras e prateleiras.

O legal, daí, é escolher uns três livros pra levar pra casa, pagar, agradecer, e ir correndo pegar o ônibus de volta. O mesmo 36, direção norte.

Invariavelmente, vai ter um doido no ônibus que ou 1. vai te olha meio estranho, 2. vai perguntar porque você se acha melhor do que ele. Mas tudo bem, você fez O Programa. O Seu Programa Favorito.

Esta entrada foi publicada em outubro 26, 2011 às 12:00 am e está arquivada sob Chicago, Vida na América. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

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