Virgin again

Li um texto do Jonathan Safran Foer em que ele falava não saber se o filho pequeno não contava o pesadelo que tinha acabado de acordá-lo porque não queria, ou porque não tinha o vocabulário para tal.

Desde que eu vim para Chicago e comecei a ler quase tudo em inglês, tenho a sensação de que perco pelo menos 20% do entendimento das coisas. É como se eu visse o mundo através de alguma tela ou peneira, de uma maneira meio míope – o que tá mais longe, não dá pra saber exatamente o que é.

Pior ainda, quando isso é levado para o discurso. Assim como o filho de Safran Foer, eu não tenho vocabulário. Só que em vez do pesadelo, o que eu não consigo traduzir é qualquer arroubo de sagacidade. Nas rodinhas, quando conto alguma piada certamente genial, que faria o maior sucesso com meus “amigos em português”, ninguém pisca. A língua roubou meu charme.

Essa segurança no olhar eu perdi

Depois desse breve nariz-de-cera, vou ao lide: tá muito difícil ser repórter aqui.  Atuar em uma língua estrangeira faz com que a minha década de experiência profissional seja apagada de tal modo que tudo o que sobra é uma ansiedade medrosa de foca. Frio na barriga na hora de ligar e pedir uma entrevista. Náusea na hora de abordar alguém na rua para fazer uma pergunta simples como “gostou do filme?”. Vontade de vomitar só ao imaginar como vai ser falar sobre a carreira de um artista ou perguntar a um acadêmico sobre o futuro do Brasil.

O que passa na cabeça é: eles vão me entender? Eu vou soar muito idiota? Tô usando uma palavra totalmente inapropriada que vai roubar a minha credibilidade? E todas essas preocupações acabam por minar qualquer prazer pré-apuração.

Na minha primeira tentativa, cheguei a chorar e desistir da apuração umas três vezes. Rolou uma espécie de “síndrome do pânico da reportagem”. A ideia de abordar pessoas estranhas na rua com o discurso “oi, com licença, sou uma jornalista do Brasil, posso falar com você um pouquinho?” fez com que eu encharcasse minha roupas a uma temperatura de 10•C.

Em outro país, em outra língua, sou virgem de novo.

 

 

Esta entrada foi publicada em outubro 17, 2011 às 10:07 am e está arquivada sob Neurose, Vida na América. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

9 opiniões sobre “Virgin again

  1. Arnaldo em disse:

    Belle, não sofra tanto. Uma coisa de bom americanos e ingleses têm em comum: estão acostumadíssimos com o bad english. Me lembro que na Espanha, embora o choque linguístico fosse em teoria muito menor, o provincianismo dos caras fazia com que me sentisse um marciano tentando imitir um chicano. Horrível!
    Mas no fim, o que vale é aquele velho trunfo de sempre: a cara de pau🙂
    Beijão!

  2. Luciane em disse:

    Belle, estou estudando na França e entendo cada linha que vc escreveu. Faz quase uma semana que estou tentando terminar minha parte de um trabalho em grupo e não aguento mais enrolar. Mas a única coisa que penso é ‘e se estiver tudo errado? E se eles não entenderem nada do que quero dizer?’
    Dizem que vai melhorar. Eu não vejo a hora…Boa sorte pra gente!

  3. ligiadiniz em disse:

    Tou com o Arnaldo. Sempre que “atuei” em inglês, ficava morta de vergonha, mas sempre rolava uma condescendência, principalmente nos EUA. O negócio é se comunicar: o mais importante não é o vocabulário ou a concordância, é se fazer entender. E você acabou de chegar; até o fim do ano, vai estar bem mais à vontade.

  4. Ô, gatam, como te entendo. Quando eu era xóvem e foca, era mais destemida. Já fiz entrevistas até em francês, bizarre. Hoje eu não arriscaria, a não ser por email, com revisão do Bernardo. Faça assim; anote as perguntas num papel e, se puder, mostre antes a um americano para ver se as palavras estão apropriadas. Se vc tiver confiança nesta primeira parte, o resto vai ser mais fácil.
    Beijos

  5. Belle, concordo com o que todos disseram. vai melhorar com o tempo e o importante é conseguir se comunicar. acho que os americanos, por mais que consigam ser um tanto quanto condescendentes de vez em quando, na maioria das vezes eles são pacientes, pois estão realmente acostumados.a ideia da paloma é gênio! bjs

  6. Luiz S. em disse:

    Belle, miss you so! Sei exatamente o que você está sentindo. É como eu me sinto ao fazer entrevistas com um inglês beeem inferior ao seu. Só acho que o seu padrão de qualidade aumentou a partir do seu convívio íntimo com a língua. O que é uma bobagem, porque o seu inglês só está melhorando e porque esse nervosismo só atrapalha.

  7. Thais M. em disse:

    Belle, tenho certeza de que você está mandando muito bem. Ao ler seu texto, me lembrei de quando fui para Vegas, há algumas semanas. Acho que você está se aperfeiçoando ainda mais por aí. Concordo com o que todos disseram aqui. O importante é se fazer entender. O resto é natural. Você vai voltar afiadíssima para suprir a falta que faz. Beijocas!

  8. Pingback: Ele, meu novo velho amor « Is a Belle Époque

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