Vidas amargas

O café é moda e hábito nos Estados Unidos já faz um tempo. Mas é uma cultura totalmente diferente da brasileira. Ou ele vem em baldes e com gosto e espessura de chá, ou vem como milk-shake, seja quente ou gelado. Até o expresso é diferente, bem mais ralo que o nosso. Pois bem, meus amigos, 2011 chegou e a América descobriu o café coado. Agora, é moda.

Nas lojas mais bacanas de casa e cozinha, há porta-filtros, iguais aos nossos de plástico marrom, em lindas versões em cerâmica colorida. Nos supermercados, uma variedade imensa de tipos de filtro e de pó, de diversas procedências e preços que chegam a US$ 40 o meio quilo. Quem tem sorte de ter um supermercado latino perto de casa pode encontrar marcas como Pilon e Goya, que apesar do nome e de afirmarem conter um “latin flavour” são feitos na Flórida e em New Jersey, respectivamente, mas trazem um certo sabor de dignidade à sua manhã.

Nos meus primeiros dias nos Estados Unidos, senti uma espécie de crise de abstinência. Sou consumidora ávida de café. Bebo, pelo menos, duas xícaras cheias do tipo coado pela manhã, um expresso depois do almoço e um café com leite no meio da tarde. Aqui, manter esse hábito ficou difícil.

Em casa, antes de saber da moda do filtro, não consegui achar nada. Me recomendaram a prensa francesa, muito em gosto por aqui, mas sempre achei que ela deixa passar pó. Procurei uma cafeteira italiana, tipo Bialetti, mas todas custavam uma fortuna. Na rua, até se encontra bons cafés, mas não em todo lugar. E, francamente, o expresso da Starbucks, naquele copinho de papelão, não consegue segurar a minha onda. Porque sim, gente, a louça ajuda o café a ser uma bebida mais correta, decente.

Resolvi esperar.

Enquanto isso, a cabeça latejava, meu nível de irratabilidade subia, uma infelicidade dominou por dias todo o meu ser. Esse inferno deve ter durado um mês, até eu ter a minha própria casa e receber a primeira adorável visita, a Bobbie Gomes, que me trouxe um saco do bom e velho Café do Ponto e um porta-filtro 103 Melita. Ah, como é doce  – e amargo – viver!

Findo o pacote brasileiro, tenho me arrumado com os pseudo-latinos do mercadinho mexicano e, principalmente, me divertido muito ao visitar um café gourmet da cidade, o Intelligentsia Coffee. O que eles servem é divino e isso não está em questão. Meu plano é levar todas as próximas visitas para degustar suas receitas de macchiato, latte, capuccino, etc., até eu deixar Chicago. Além do grão habitual, todos os dias eles têm algo novo de algum país-produtor importante como especiais do dia.

Agora, além disso, o meu hóspede vai ao Intelligentsia porque ele funciona como uma espécie de Museu da Antropologia Americana Contemporânea. É aqui que se entende melhor a moda do café coado. Do lado mais vistoso do balcão, bem em frente à vitrine da loja, um dos baristas, sempre vestido à moda hipster, coa tres jarrinhas de café. Essas jarrinhas, de vidro, têm uma forma elegante e são dispostas em cima de balanças digitais. Acima delas, um apoio de metal segura os porta-filtros de cerâmica branca. O barista, com movimentos circulares visivelmente calculados, despeja lentamente a água quente nos filtros de forma alternada. Seu semblante reflete toda a concentração que essa atividade requer. Um músico erudito em ação, eu diria, é o que mais se aproxima dessa imagem. O cenho, franzido, os olhos, vidrados. A atividade dura minutos que parecem horas. Quando a água é despejada por completo, o público que se forma em frente ao espetáculo invariavelmente solta a respiração contida pela tensão de acompanhar aquela série de movimentos tão precisos.

Diferentemente do expresso, rápido, fugaz, o café coado une entorpecente e espetáculo. É drogas e rock n’ roll, baby.

Barista faz café coado em loja do Intelligentsia Coffee; precisão cirúrgica

Esta entrada foi publicada em outubro 11, 2011 às 7:16 pm e está arquivada sob Comida, Vida na América. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

2 opiniões sobre “Vidas amargas

  1. bobbie em disse:

    melhor capuccino que eu já tomei na vida. #prontofalei
    era da guatemala, se eu não me engano.
    um dos especiais do dia.❤

  2. Iris Jonck em disse:

    Que demais!! Moda do café coado é o must!!!!!! Adorei o texto!! bjo grande!

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