O abracinho

Mais cedo ou mais tarde ele ia acontecer, o choque cultural. Só não era esperado que fosse com a coisa mais baba do mundo, que todo mundo já sabe: americano não toca. Brasileiro já chega beijando, abraça, nos casos mais formais, pelo menos um aperto de mão dá. Nos EUA, todo mundo sabe, não é assim. O aperto de mão mora no hall da melhor das hipóteses.

Eis que o meu marido tem o seu primeiro amigo. Superamericano. Nascido e criado na Califórnia, morador do Michigan por mais de uma década. Progressista, intelectual, divertido. E não é de tocar. Mas é de beber e é aberto. Viajou o mundo, do Brasil à Tailândia. E, depois de uns drinques, ouve da gente que nós achamos bem estranho a coisa da falta de toque daqui. Se eu tivesse pensado melhor, me ligaria do quanto ainda me arrependeria dessa conversa.

Desde então, o amigo desenvolveu seu totalmente não-natural hábito de dar um abracinho na hora do oi e do tchau. É uma das coisas mais constrangedoras que eu já vivi na vida. Ele é grande, desengonçado e vem com os braços abertos como se fosse um abominável monstro das neves e eu nunca sei se o abracinho vem ou não com beijo, fico meio dura, meio morta e não é possível que ele não note que isso é uma má ideia.

Esse ramerrão vem se repetindo sempre que a gente se encontra. Outro dia, em uma festinha com vários americanos, ele não tocou em ninguém, mas me deu o abracinho, com seu jeito bizarro de ser. Na hora do tchau, deu um abraço totalmente diferente e natural na anfitriã. Estranho é o destinado pra mim.

E agora, como se livrar disso? Dizer que não é o caso? Eu estou no país dele e portanto eu que devo me adaptar às regras sociais? O cara é tão legal e tão aberto que vira um mala, de certa forma. Eu temo ter que começar a fugir dele. Talvez isso aconteça de fato. Não quero mais aquele abraço, abaixo o toque!

Abraço de monstro, garanta o seu!

Esta entrada foi publicada em setembro 21, 2011 às 10:26 am e está arquivada sob Estados Unidos, Neurose, Vida na América. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

Uma opinião sobre “O abracinho

  1. O que eu acho engraçado é que as pessoas dizem “I love you” na maior naturalidade para um amigo, um recém-conhecido, mas não se tocam. Eu me adaptaria rapidinho ao jeito deles, porque um abraço “cobrado” deve ser ruim demais.
    I love you, Belle.

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