Limpeza étnica

Este blog anda meio abandonado. Mas o motivo é bom. Tem a ver com fincar as raízes (ainda que só temporariamente) e encontrar-se com a abundância da América. Traduzindo, uma puta função de limpar o apartamento pra montar a casa. A abundância? Nas prateleiras de lojas e supermercados. O que tem de marca e tipo de produto de limpeza não é brinquedo não.* O pior é que é tudo bem diferente do que é oferecido no Brasil e pode causar muita confusão sobre o que usar e onde.

Minha saga começou no dia primeiro de setembro. E o que foi a primeira compra talvez tenha sido a mais genial-fundamental-sensacional de todas. Dirt Devil é seu nome. Ele é vermelho e implacável como o demônio. E como suga! Um aspirador de pó sem precedentes e sem saco de papel. Se não fosse por ele, talvez eu já estivesse respirando por aparelhos.

Além dele, alguns sprays que prometem ação total contra a sujeira de cozinha e banheiro, detergente em óleo para chão de madeira, detergente comum, uma vassoura, um balde, luvas, espanador, um combinado de 20 esponjas, 8 rolos de papel de cozinha, um mop (espécie de rodo com papel grudado no fundo, que funcionaria como pano de chão) e uma faquinha de plástico vinda de um fast-food mexicano.

A aspiração do quarto de dormir me deixou muito assustada. Em 20 minutos, foi formada uma bolota de uns 10 cm de diâmetro no Dirt Devil (ele tem um copão de liquidificador transparente que permite que se veja a nojeira se amontoando). E dois grandes desafios se materializaram na minha frente: aquecedor e janela. O aquecedor, que parece uma serpentina de aço, tem certas partes inalcançáveis, com teias de aranha que devem cohabitar o meu novo apartamento desde a época em que Chicago era um polo de cinema e que Chaplin filmava por aqui. A janela, essa nunca viu um vidrex na vida. Mas o pior de tudo não era nem o vidro, mas a estrutura. Pense em uma camada preta, sólida, de pelo menos 2 cm de poeira maciça. Difícil de imaginar, né? Mas, acredite, existe.

E foi aí que a faquinha se mostrou ser o segundo objeto de maior valor de toda a minha assemblage higiênica. Com determinação e fluência, ela escavou a dura camada preta, que a posteriori era sugada pelo Demônio da Poeira. Bingo!

Dia dois. Sala de jantar. TRES janelas. Trabalho triplo pra faquinha. Nova frente de batalha – rodapés. Você aí pensa: “essa mina tá louca, exagerando, não é nada difícil limpar rodapé” . Mas é aí que entra a limpeza étnica. No Brasil, a gente tem esse hábito. A gente, de fato, limpa rodapé, canto de janela, etc. etc. Talvez eu seja acusada de generalizar, mas eu du-vi-do que os moradores anteriores tenham limpado alguma vez. E digo mais: em uma festinha com locais, todos acharam bem estranho esse tipo de faxina mais específica. Sutilmente, fui taxada de obsessiva.

Ainda no dia dois, o desafio maior foi o banheiro da casa. Americanos não trabalham com o conceito de pano de chão e paninos são artigo raro. Como complicador, banheiros e cozinhas não contam com ralos. Como limpar então um banheiro castigado pelo uso e sem faxina ao menos por um mês? Tentamos o Swiffer Sweeper. Muito sutil, aquela sujeira precisava de mais. Seguindo o conceito da limpeza étnica, meu marido tentou resgatar os movimentos das faxineiras brasileiras, balde, vassoura, água e sabão, esfrega-esfrega-esfrega. Mas e o ralo? Uma água preta começou a se formar e, sem pano de chão ou canal de escape, nos desesperamos. O Sweeper entrou em ação pra chupar aquilo tudo.

Dia três. A revanche, finalmente! Encontrei ele, o tubarão, Shark Steam Mop. E assim, foi possível dar um gás no close e na sala de jantar com esperança no coração de que, com mais dois dias, será possível chegar ao fim da faxina do novo apartamento e voltar a viver.

(Na real, o que me assustam são as janelas. Há 3 ainda pra desbravar.)

Fica também um debate interno. Eu não estou mais no Brasil. Por que eu quero limpar como se ainda vivesse no meu país de origem? Preciso desapegar de certos conceitos, muitos dizem. Mas, por outro lado, se aqui é a terra da abundância e há todo tipo de produto, deve haver alguma maneira de resolver as coisas mais facilmente, sem sofrimento. Estou procurando.

Dirt Devil, Shark e seus amigos

*A sensação de abundância nos Estados Unidos, apesar de serem tempos de crise, é algo que totalmente chama a minha atenção. É impressionante como ela está em todo lugar. Nos tamanhos dos pratos e bebidas – se você pede um capuccino pequeno não tem ideia do que pode vir por aí -, na oferta de produtos, no tratamento das pessoas. Espero conseguir falar mais sobre isso no futuro breve.

Esta entrada foi publicada em setembro 4, 2011 às 11:48 am e está arquivada sob Neurose, Vida na América. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

3 opiniões sobre “Limpeza étnica

  1. Beeeeeeeelle, me senti super representado neste seu post. Estou passando pela mesma coisa aqui nas Ilhas Mauricio. Ja faz exatos 20 dias que estou no meu novo apê e te juro que ainda não terminei a faxina étnica (Ainda falta o grande banheiro que ainda esta me exigindo muita meditação pra finalmente encara-lo). Somente a limpeza da geladeira ganhou uma pagina inteira de sofrimento na minha vida.
    Queria ter todos esses seus aparatos que aqui não são muito acessiveis.
    Boa sorte ai na tua nova vida.
    Beijos

  2. Mariana Rocha em disse:

    Bom, ainda bem que tem um produto aí que parece Pinho Sol.
    Beijo, Belle, limpa mesmo!

  3. Luciana em disse:

    A primeira faxina é a mais difícil! Depois é só fazer a manutenção, “american way”, com Windex e Lysol…
    Mas é fato que a faxina brasileira é mil vezes mais minuciosa que a americana!
    Beijos e boa sorte!

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