Comer, Beber, Viver

(A troca de correspondências continua. Eu respondo a carta da Helo.)

De Isabelle Moreira Lima, Chicago
Para Heloisa Lupinacci, São Paulo

Helozita,

Segui seus conselhos e publiquei neste blog a íntegra do que rolou entre o Grant Achatz e eu – oh my! -, que convenhamos foi uma linda relação que durou exatamente… uma hora e dois minutos. Tipo assim, o MAIORCHEFDOSEUA me deu uma hora e dois minutos da vida dele. Morry. E o cara é desses que você fica acreditando que tá se abrindo pra você, (talvez ele estivesse mesmo) e eu fiquei feliz. Foi um lindo exercício de jornalismo que dá certo. E é bom quando dá, né? Pena que nem sempre é assim.

Com o jornalismo, eu tô vivendo essa louca história de novo. Quando eu vim pra cá, tava bem de saco cheio, rezando pra descobrir algo que pudesse fazer. Valia qualquer coisa, só tinha que me render um sustendo e me dar felicidade. Aos poucos, eu fui fazendo um bico aqui, outro acolá de jornalismo pra ganhar uns trocados e vi que era isso aí. Ser repórter é legal. E funciona. Começou uma lua-de-mel e tal. Mas aí, passei dessa fase e comecei a me sobrecarregar, o que me deu um certo desespero – medo de errar, medo de perder a mão, de deixar cair a qualidade dos textos. Tô respirando fundo e sendo atenta que ainda tenho dois textos bem importantes (pra mim, principalmente) pra terminar. E o foco é todo deles.

Ainda nesse assunto, tenho pensado que tenho a sorte de ter os dois lados: ser jornalista e leitor novato no que diz respeito às publicações. Aqui, eu tento ler o Chicago Tribune. O jornal é grande, é o segundo maior grupo dos EUA, se não me engano. E naquele documentário sobre o New York Times, o Page One, sabe? Ele aparece como uma empresa vilã, o que é meio engraçado porque me fez pensar no histórico de gângsters da cidade. Enfim, mas na vida real, pra mim-leitora, o jornal me parece mesmo é inocente. O tipo de matéria que leva a chamada de capa – e estou falando mesmo é da versão online – é uma coisa meio jornal de bairro, buraco de rua, problema de vizinhança, alerta sobre pólen. Daí, outro dia, conversando com uma moça muito legal que é editora lá, ela me contou que é o jeito que os jornais estão fazendo para sobreviver, pra vencer a crise. Eles focam nas notícias locais como diferencial, uma vez que todo mundo tem o mesmo conteúdo nacional de agência. A estratégia me parece inteligente, mas que fica uma primeira página bem caipira, ah, isso fica!

Eu fico lendo a versão online sempre, de todo jornal, até quando o Chico compra o papel. (Ele sempre compra e é muito melhor leitor que eu.) Eu ODEIO ficar com o dedo sujo (sim, eu tenho um pé no patricismo, apesar de não ter problema em limpar privada entre outras coisas que a vida na América me presenteou). E fiquei sabendo dessa tecnológica técnica de passar o jornal ao assistir Downton Abby, uma das melhores coisas que me aconteceram nos últimos anos. Já viu? Se não, vai ver! Foram duas temporadas em três dias. Pense!

E, falando em séries, isso me fez pensar em outra ainda e em tudo o que você me disse sobre prestar atenção na comida. Eu acho que você tá certa e eu gosto dessa ideia. (E eu acho que a gente vai ter muito assunto sobre esse assunto daqui pra frente!) Mas, antes de mais nada, você já viu o episódio de Portlandia sobre a origem do frango? Você usou justamente o frango como exemplo e eu não pude deixar de morrer de histeria ao lembrar do episódio. É longo, cheio de desdobramentos, mas a primeira parte tá aqui:


Tudo o que você me disse me fez pensar também em um texto que li esses dias, do Mario Batali, na edição de primavera da Lucky Peach. Ele conta de revolução da cozinha que ocorreu na California nos anos 60, 70, um movimento pós-Julia Child, que levou as pessoas a se interessarem mais por cozinha. As pessoas lá se tocaram que tinham características bem próximas (clima, solo, etc.) às da França e que poderiam produzir uma série de ingredientes para melhorar as suas vidas. Nessa onda, passaram a fazer queijo de cabra, a cultivar vários tipos de mini alfaces… A coisa funcionou tanto que os hábitos se transformaram e não era mais uma questão de “encher o bucho”. Ir a um restaurante era como ir à ópera, conta o Batali. Já pensou nisso? Eu gosto tanto dessa ideia… Pra mim, comida é isso aí, um evento!

Não, é mais. Comida é uma das coisas mais importantes do mundo e eu tenho tido, cada vez mais, uma relação forte com ela. Não sei se presto atenção a cada detalhe e às maneiras como são feitos os ingredientes, como eles chegam até mim e tal, mas eu sei que eu uso tudo o que passa pela minha cozinha pra me comunicar. Principalmente e ultimamente, a comida foi minha grande aliada no meu casamento. Quando o Chico virou o mais louco do mundo com trabalho no mestrado, a comida era usada pra atrai-lo e a mesa era onde acontecia a nossa comunhão. Já pensou que louco? Loucão, mas funcionou. As coisas voltaram ao normal já, mas eu sei que, se os prazos apertarem pra ele, se ele se afogar em trabalhos, eu tenho uma arma de guerra – ou do amor.

Nesse fim de semana, assisti pela primeira vez  “Comer, Beber, Viver”, do Ang Lee, e me emocionei. Me vi. Entendi tudo. A comida. É importante pra nossa vida, e não só pra nos manter em pé, vivos, saudáveis, mas pra nos alegrar, pra nos unir, pra nos fazer mais criativos. Eu acho que a comida tem poder. Muito poder, aliás.

Talvez seja uma visão menos hippie. Talvez eu não esteja pronta pra tocar a flauta. Mas eu posso fazer uma massinha pra você comer depois do seu show. Que tal?

Beijos, saudades,
Belle.

A família do Mestre Chu, de "Comer, Beber, Viver"

PS: O Rahm Emanuel, esqueci de falar dele! Bem, esse é outro caso. Um célebre morador da Chicagaloka que tá meio difícil de eu conseguir chegar junto. Aliás, ele é tão polêmico que em mais de sete meses aqui ainda não consegui decidir se é do bem ou do mal. Só continuo curtindo as frases de efeito – ainda que ele ande meio sumido – e achando ele beeeeem gatinho. Não sei se te contei, mas o vi pessoalmente uma vez, num show da Feist, logo que cheguei. Achei ele mais acabado que nas fotos, mas ainda assim Gato, com G maiúsculo.

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This entry was published on março 27, 2012 at 9:12 am and is filed under Ai esse comportamento!, Comida, Rahm Emanuel, Troca de cartas, Vida na América. Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

8 thoughts on “Comer, Beber, Viver

  1. Thá Albieri on said:

    Isabelle!

    Resolvi “dar a Cesar o que é de Cesar” e comentar, in loco, os textos recém-lidos: a sua carta com a Helô (engraçado, sem saber, Helô, para mim, tbém era Helozita…rs) e os dois textos que escreveu sobre o Achatz. São SENSACIONAIS!
    Parabéns! E, desde que descobri seu blog, ele tbém é leitura obrigatória! Obrigada!
    beijos

  2. Thá Albieri on said:

    Belle (já me aproveitando da intimidade que usei no caracteres!)!!!!

    Tenha a certeza de que seus litores tbém ficam BEM contentes com seus escritos!
    Acompanho o blog desde os primeiros textos, sempre ensaiava um comentário, mas acho que certa caipirice me impedia de publicá-lo.
    Aí que resolvi deixar a caipirice de lado e me manifestar! Apesar de ser BEM menos caipira na vida, às vezes, tenho dificuldade de escrever…mas quando o que a gente lê é bom, tem que ser dito, seja de qual jeito for!
    beijos!

  3. tô adorando acompanhra esse amor pela comida. eu também gosto tanto… queria largar a vida acadêmica tacanha e cozinhar pra valer. uma das minhas portuguesas do apto é chef e acho mesmo que ela me influenciou por demaisssss. sabe, que tem umas coisas legais também sobre história da alimentação? não, não, nada de Câmara Cascudo. Tô falando de outras coisas, não só no Brasil, que explicam porque a gente come o que come e tal. eu fiz, tem tempo, uma série sobre isso pro Correio Braziliense. era o jeito de falar de comida lá sem dar só a receita. fui feliz por alguns meses… continua falando disso e eu continuo lendo. bjo!

    • gata, vou totalmente procurar sua série do correio. fiquei muito curiosa! genial!!
      eu, durante muito tempo, sofri pensando o que eu queria fazer em relação ao meu amor pela cozinha. e agora, acho, finalmente me resolvi. quero continuar vivendo do jeito que eu tô. cozinhando muito e amadoramente, pensando e lendo sobre comida. não quero ser (nem acho que conseguiria) transformar isso numa profissão. é só amor. <3

  4. Laíssa Barros on said:

    Passei uma horinha do meu dia lendo todos os textos do seu blog. Foi engraçado como me identifiquei com você e não conseguia mais parar de ler, exatamente como um livro que não conseguimos parar de ler e levamos para todos os lugares até dar fim a agonia e a magia que aquilo representa. Não sei se essa identificação foi por eu estar no último ano de jornalismo e também já ter pensado em ser correspondente de guerra, se foi pela autoburocracia que me assola em época de tcc, pela minha vontade imensa de ter um pen pal, se foi por eu também não admitir que conheci meu namorado pela internet ou pela paixão pelo jornalismo, livros e café. Só sei que foi muito agradável ler seus textos e conhecer você de alguma maneira através deles. Espero que você continue sempre escrevendo e aproveitando esse momento da sua vida em Chicago. Beijos de uma leitora.

    • Oi Laíssa,
      Obrigada pela mensagem. E pelo seu tempo também, principalmente em meio ao tcc. Boa sorte com o trabalho, eu sei como pode ser estressante!
      Beijos.

  5. Pingback: Você, eu e todas as jornalistas « Is a Belle Époque

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